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PRESIDENTE DO CPC/RN TENTARÁ CONCLUIR DOCUMENTÁRIO SOBRE PRÉDIOS ANTIGOS DAS CAPITAIS DO NORDESTE AINDA ESSE MÊS!

Fotos: Google CENTRO POTIGUAR DE CULTURA - CPC/RN Eduardo Vasconcelos, presidente do Centro Potiguar de Cultura - CPC/RN, t...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

CULTURA: Literatura do Golpe ou Drummond na ilha de Caras

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Drummond: provisoriamente não cantaremos o amor
Os homens excepcionais devem desaparecer para que a iniquidade se naturalize.
Conversa Afiada reproduz e-mail de amigo navegante:
O golpe parlamentar de 2016, o dernier cris das formas de Golpe que, de tempos em tempos, as classes falantes submetem às classes mudas do país, desvelou o que sempre esteve à sombra, mas ativo e presente, desde o último Golpe: o compromisso da Justiça com os interesses de classe, a corrupção sustentada por nossos estimados empresários (logo eles que sempre responsabilizam o Estado – “ah, o custo Brasil” !), os políticos oligarcas, a cumplicidade da grande mídia na “festa da democracia”, enfim, esse conjunto grotesco que nos é tão familiar.

É o que também produz sua cultura, que destitui as artes de sua capacidade emancipatória para torná-la mais adequada ao consumo de nosso presente gangrenado. Ajustada, polida para excluir suas rebarbas, brilhosa e de fácil deglutição, devidamente limpa dos vestígios da história (“ideológicos”), eis aí a cultura necessária para a normalização do momento em que vivemos. 

Essas observações me vieram a propósito da homenagem a Carlos Drummond de Andrade realizada no Fórum das Letras de Ouro Preto. Sob o comando de Edmilson Caminha, Humberto Werneck e Pedro Drummond, a mesa redonda “Vem, Carlos, ser gauche na vida” era parte de uma homenagem maior que, inspirada na obra do grande poeta, buscava “a poesia como antídoto” para tempos obscuros.

A princípio nada mais adequado, nada mais apropriado do que retomar Drummond para o agora. 

Porém, no lugar do homem e sua ética, da obra e sua estética, o que se pintou foi um Drummond na intimidade, com seus tiques, suas manias, sua frieza gestual, suas tiradas, suas obsessões.

Aliado ao voyeurismo de Werneck, Caminha e do público passivo e inerte, Pedro Drummond, o neto do poeta, narrou historietas vividas entre quatro paredes. 

O interesse pela vida privada em tempos de sociedade do espetáculo se tornou o pão diário da vida cultural, mas desde 2016 tal gosto pelo íntimo, como ficou evidente ad nauseum nesse ataque à memória de Drummond, ganhou de tal forma um grau de deformação, que me parece não esconder o propósito de transformar rapidamente a cultura em consumo, retirando-lhe qualquer menção à obra e a seu conteúdo de verdade.

O que interessa não é mais a densidade da forma artística e a maneira como ela fixa no tempo elementos duradouros do passado que ainda nos tocam por sermos itabiranos, mineiros, brasileiros, do mundo.

Essa vontade explícita de superfície, verdadeira violência contra um homem extremamente discreto, cuja sisudez espantava a tietagem, traduz muito bem o momento presente de exclusão do gesto excepcional para a exultação da banalidade cotidiana, que nos torna todos “humanos”.

E nesse sentido, a “homenagem”, a cada frase saída de um português balofo e empoeirado, se convertia no ataque sistemático ao homem excepcional e sua obra singular, tudo isso em pleno solo mineiro, com o justo propósito de louvar Drummond, mas que não escondia a aversão à análise, à fruição crítica (que para esses drummondianos de consumo é sinônimo de pernosticismo acadêmico).

Nessa busca da frivolidade, Drummond foi exposto ao ridículo, despido em sua intimidade, vilipendiado em sua obra (em sua leitura precária, o jovem mestre de cerimônias, saído direto de um programa de auditório para um encontro de literatura, apresentou os três convidados e foi quem melhor sintetizou o que viria em seguida: “Vem, Carlos, ser Gaúcho na vida”). 

Para Werneck e Caminha, cultura é aquilo que eles usufruem, e a forma dessa cultura ser compartilhada só pode ser pela via da vulgarização sem limites. Para eles, Drummond é algo a ser fruído em belas edições na sala, enquanto que às massas oferece-se o homem banal.

Vida longa ao Fórum das Letras de Ouro Preto, mas que ele não se deixe desfigurar pelo compadrio provinciano, cujas relações com o presente são de manutenção a todo custo de um estado de coisas, mesmo que para isso busque-se a glorificação pela via do vilipendio simpático.

No entanto, apesar da dose concentrada de desonestidade intelectual e violência elitista, este é apenas mais um caso de liquidação generalizada disfarçada de elogio a que nos acostumamos neste nosso atual e “normal” período de democracia. 

Este exemplo – verdade que paradigmático – é apenas um entre tantos outros.

No momento presente, os homens excepcionais devem desaparecer para que a iniquidade se naturalize.

Definitivamente vivemos em tempos sem luz, tão bem descritos por um poeta qualquer: 

Congresso Internacional do Medo
Provisoriamente não cantaremos o amor,

que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.

Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,

não cantaremos o ódio, porque este não existe,

existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,

o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,

o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,

cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,

cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.

Depois morreremos de medo

e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas

A Tropicália e a prova dos nove

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Há 50 anos, uma polêmica sacudia o mundo da cultura e os conceitos de política, ao misturar os rumos da MPB, o mercado cultural e a inserção do Brasil no cenário global
Entre setembro e outubro de 1967, compositores, intérpretes e instrumentistas apresentaram canções populares para o júri do III Festival de Música Popular Brasileira, a plateia do Teatro Paramount e os telespectadores da TV Record. De lá para cá, Alegria, Alegria e Domingo no Parque triunfaram. Não somente musicalmente, mas ideologicamente, na medida em que a Tropicália organiza nossa percepção sobre o Brasil. De um lado, o triunfo tropicalista contribuiu para afirmar a força da cultura brasileira: os fluxos culturais internacionais foram deglutidos pela cultura nacional, renovando-a sem destruí-la. De outro lado, o triunfo tropicalista levou ao maniqueísmo: as canções de Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentadas no festival de 1967 dividiram a MPB em um antes e um depois. Enquanto a Tropicália justapõe antagonismos para tencioná-los, raramente é percebida como resposta criadora às questões postas pela MPB.
Comemoremos os 50 anos da Tropicália, mas tentemos compreendê-la afastando-nos do maniqueísmo a estabelecer cisões rígidas. Com isso, deixando de ver arte autêntica versus arte comercial, cultura brasileira versus cultura internacional e tradição versus modernização como tensões que, por perpassarem o campo musical, estimularam Caetano Veloso e Gilberto Gil a arriscarem-se no III Festival de Música Popular Brasileira com composições até então atípicas na MPB.
Apesar da qualidade de Ponteio, à frente da segunda classificada Domingo no Parque, e da força de Roda Viva, à frente da quarta colocada Alegria, Alegria, o entendimento da classe artística era de que a MPB estava em crise. Em debate coordenado em 1966 por Airton Lima Barbosa, do Quinteto Villa-Lobos, para a Revista Civilização Brasileira, o crítico musical Flávio Macedo Soares apresentou seu diagnóstico da crise para os outros debatedores (Caetano Veloso, Nara Leão, José Carlos Capinam, Nelson Lins e Barros, Ferreira Gullar e Gustavo Dahl): no contexto do Golpe de 1964 houve um desdobramento no interior da bossa nova que culminaria no surgimento da MPB; ao mesmo tempo surgia a jovem guarda. A diversidade de manifestações no interior da canção popular exemplificava o diagnóstico do crítico[1]. Sendo a MPB feita pela juventude intelectualizada para jovens de classe média, ela teve de disputar o mercado de discos e a audiência da televisão com a Jovem Guarda. A primeira crise sobre a qual nos fala Soares é a de consumo.
No mesmo debate Nara Leão contestou a percepção sobre a baixa vendagem de discos. Afirmou que a MPB não fazia concorrência com a Jovem Guarda. Seus álbuns continuavam vendendo tanto quanto antes da explosão de Roberto Carlos. Esgotavam-se em seis meses e, naturalmente, o público jovem comprava novos lançamentos. Quem continuava dominando o mercado era Altemar Dutra e Orlando Silva, cujos discos tinham outro público consumidor[2]. Em vez de a cantora voltar sua artilharia para a Jovem Guarda, procurava compreender a segmentação do mercado de discos. Na televisão, O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina e Jair Rodrigues, e Jovem Guarda, conduzido por Roberto Carlos e Wanderléa, procuravam atingir o mesmo público. Enquanto a audiência do primeiro caia, a do segundo aumentava. Mas o programa com os mais altos índices do IBOPE em 1967 era Esta Noite se Improvisa. Diferente do formato dos outros dois, centrado em números musicais, o programa apresentado por Blota Júnior era uma gincana na qual os convidados tinham de cantar uma música depois da palavra anunciada pelo apresentador. As finais geralmente eram disputadas por Caetano Veloso, Chico Buarque e Carlos Imperial – compositor de alguns sucessos da Jovem Guarda[3].
Ao analisar o desenvolvimento do consumo da música via televisão e indústria fonográfica na segunda metade dos anos 1960, Marcos Napolitano conclui que a MPB foi mais eficiente comercialmente do que a Jovem Guarda em razão de ser “reconhecida pela crítica”, de ter atraído “o público consumidor de alto poder aquisitivo” e de ter reorganizado “o mercado, estabelecendo uma medida de apreciação e um padrão de gosto”[4]. Se partirmos do pressuposto que a MPB era autêntica face ao comercialismo da Jovem Guarda sempre chegaremos à mesma conclusão de que Caetano Veloso e Gilberto Gil eram inautênticos. Os tropicalistas apropriaram-se da guitarra elétrica da Jovem Guarda porque também acreditavam que o consumo da MPB estava em queda. Considerando a insistência de Tom Zé em continuar fiel à estética tropicalista nos anos 1970, caindo no ostracismo na década seguinte, é possível afirmar que a Tropicália tinha menos potencial comercial do que a MPB.
A segunda crise presente no diagnóstico de Flávio Macedo Soares é a cultural, que ele apresentava a seus interlocutores como um lamento em relação à crescente autonomia do campo musical: a geração de Caetano Veloso e Gilberto Gil não conservou uma “visão da cultura” que integrasse a canção popular às outras manifestações artísticas[5]. Ao negarem a influência do jazz e o intimismo das letras, Baden Powell, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Nélson Lins de Barros e Sérgio Ricardo passaram a buscar no folclore a base de suas canções e na realidade das classes populares o tema de suas letras. O engajamento fez com que houvesse uma colaboração maior dos músicos com o cinema, a literatura e o teatro. No debate, Caetano Veloso foi o único a tirar uma conclusão da afirmação do crítico ao dizer que “o mais importante no momento […] é a criação de uma organicidade de cultura brasileira, uma estruturação que possibilite o trabalho em conjunto, inter-relacionado as artes e os ramos intelectuais”[6].
Alegria, Alegria e Domingo no Parque são influenciadas diretamente pelo cinema, pela literatura e pelo teatro. Caetano Veloso sempre enfatizou a importância do filme Terra em Transe e da montagem de O Rei da Vela para sua virada musical em 1967[7]. Em relação ao cinema, Gilberto Gil falou que a influência era inconsciente[8], mas admitiu em reportagem de Décio Bar publicada em 1968 na Realidade que a montagem de A Cantora Careca impactou em sua obra a ser apresentada no III Festival de Música Popular Brasileira[9]. Mais uma vez a percepção que circulava no interior da MPB foi um estímulo para a gênese da Tropicália. Quase todos os tropicalistas passaram pelo Teatro de Arena, onde vivenciaram a realidade de que nos fala Soares. Só que os tropicalistas radicalizaram a proposta: em vez de dialogarem com outras manifestações culturais, apropriaram-se da linguagem delas na estrutura da própria composição, cujo exemplo mais visível é o tratamento cinematográfico dado às letras de Alegria, Alegria e Domingo no Parque. Posteriormente, a Tropicália aprofundaria mais e mais “uma organicidade de cultura brasileira”, fazendo com que a canção tropicalista perdesse sua autonomia. Caetano Veloso e Gilberto Gil mais tensionaram as dicotomias postas pela MPB do que responderam às exigências do mercado de tornar a canção popular uma especialidade face às artes visuais, ao cinema, à literatura e ao teatro.
Em seu diagnóstico, Flávio Macedo Soares não percebia que o desenvolvimento da MPB respondia a uma exigência do mercado em atender diferentes consumidores, separando de forma rígida autenticidade de comercialismo em uma sociedade capitalista e cultura brasileira de cultural internacional em um processo crescente de fluxos culturais estimulados pelos meios de comunicação de massa. Preso à segunda dicotomia, o poeta José Carlos Capinam, no mesmo debate, desvencilhava-se da primeira delas. Criticando o “comportamento pré-capitalista da esquerda brasileira”, por ela resistir à industrialização e ver o “mercado como o grande sacrifício de sua arte”, percebia que a indústria cultural fornecia os instrumentos de propaganda política. O poeta rompia uma dicotomia, preservando a outra intacta. Contudo, era no interior do mercado que a arte nacional deveria disputar espaço com a arte internacional. “A música popular brasileira deve surgir agora reconhecendo a necessidade de organizar sua infraestrutura e revitalizar sua linguagem em intensa pesquisa de raízes e recursos contemporâneos da música”, concluía Capinam[10]. Nesse sentido, ele estava sendo mais realista do que Caetano Veloso e Gilberto Gil.
O nacional-popular era o espírito da época, marcando os bens culturais produzidos e consumidos pelos jovens universitários. O surgimento da Jovem Guarda marcou um dissenso na cultura jovem e a indústria cultural tornou-se uma realidade a ser enfrentada pela juventude intelectualizada. Não só o poeta, mas músicos passaram a exorcizar a Jovem Guarda, mesmo estando tão integrados à televisão e à indústria fonográfica quanto Roberto Carlos. Segundo Zuza Homem de Melo, a passeata de julho de 1967 contra a guitarra elétrica foi uma forma de promover o programa Frente Única da Música Popular Brasileira[11]. A Tropicália rechaçava o nacional-popular, que restringia o acesso dos músicos aos fluxos culturais internacionais e engessava a tradição. Se, para Flávio Macedo Soares, a Jovem Guarda era um produto exótico ao Brasil, para Augusto de Campos ela indicava um caminho de renovação para a MPB[12]. A explosão de Roberto Carlos tencionou a relação entre a arte nacional e a arte internacional no polo mais dinâmico do mercado cultural dos anos 1960.
No processo de desenvolvimento da MPB, a Bossa Nova deixou de ser encarada como parte da tradição brasileira. O elo direto com o folclore era dado pela MPB. O processo era descontínuo, marcado por crises e cisões. Em última instância, a tradição era definida pela ideologia nacional-popular. Mesmo sendo produzida por jovens das classes populares, a Jovem Guarda não era música brasileira por ser uma tradução do rock. Assim como a Bossa Nova não fazia parte do repertório nacional por ter sido influenciada pelo jazz. No debate, Caetano Veloso se posicionou contra essa visão descontínua da tradição ao falar em retomar a “linha evolutiva”; ou seja, pensar a MPB pela perspectiva aberta pela Bossa Nova. Seu maior exemplo é João Gilberto, “o momento em que isto aconteceu: a informação da modernidade musical utilizada na recriação, na renovação, no dar um passo à frente da música popular brasileira”[13]. A Tropicália resultou da necessidade da MPB considerar a Jovem Guarda uma “informação da modernidade musical”.
Em 1967, durante o III Festival de Música Popular Brasileira, Alegria, Alegria e Domingo no Parque foram uma resposta à “crise” da MPB. Nisso, tensionaram as dicotomias postas no campo musical: arte autêntica/arte comercial, cultura brasileira/cultura internacional e tradição/modernização. Os termos, porém, definiam posições políticas. A identificação com o primeiro termo de cada dicotomia servia para criar unanimidade e solidariedade do público consumidor da MPB contra a ditadura militar. Decorrendo daí a ambivalência da Tropicália: alienada ou engajada, direitista ou esquerdista. Só que para Caetano Veloso e Gilberto Gil as dicotomias eram um falso dilema para a sobrevivência da MPB. A maior carga semântica da Tropicália é que a faz triunfar no período democrático, mas sempre a torna uma esfinge quando apreciada somente pela lente ideológica.
___________________
[1] BARBOSA, Airton Lima. “Que caminho seguir na música popular brasileira?”. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, ano I, n. 7, p. 375-385, mai. 1966.
[2] Idem.
[3] BAR, Décio. “Acontece que ele é baiano”. Realidade, São Paulo, ano III, nº 33, p. 186-198, dez. 1968.
[4] NAPOLITANO, Marcos. A síncope das ideias: a questão da tradição na música popular brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, p. 97-98, 2007.
[5] BARBOSA, Airton Lima, op. cit., p. 376.
[6] Ibidem, p. 378.
[7] VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
[8] TERRA, Renato; CALIL, Ricardo. Uma noite em 1967. São Paulo: Planeta, 2013.
[9] BAR, Décio. “O tropicalismo é nosso viu”. Realidade, São Paulo, ano III, nº 33, p. 174-184, dez. 1968.
[10] BARBOSA, Airton Lima, op. cit., passim.
[11] TERRA, Renato; CALIL, Ricardo. Uma noite em 1967. São Paulo: Planeta, 2013.
[12] CAMPOS, Augusto de. “Da Jovem Guarda a João Gilberto”. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, ano LXVI, nº 22.464, 30 jun. 1966. Segundo Caderno, p. 1.
[13] BARBOSA, Airton Lima, op. cit., p. 378.
*Josnei Di Carlo Vilas Boas – Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialização em Ensino de Sociologia, em 2010, na mesma instituição de ensino superior. Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), 2013. Atualmente é discente de doutorado da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Brasil Cultura

Atlas da Violência 2017: negros e jovens são as maiores vítimas


"De acordo com o estudo, a população negra, jovem e de baixa escolaridade continua totalizando a maior parte das vítimas de homicídios no país"

Essa desigualdade se manifesta ao longo de toda a vida e em diversos indicadores socioeconômicos, em uma combinação perversa de vulnerabilidade social e racismo que os acompanha durante toda a vida. Não à toa, negros e negras ainda sofrem com enormes disparidades salariais no mercado de trabalho: dados recentes divulgados pelo IBGE mostram que negros ganham 59% dos rendimentos de brancos (2016)”, diz o documento.

“Assumir que a violência letal está fortemente endereçada à população negra e que este é um componente que se associa a uma série de desigualdades socioeconômicas é o primeiro passo para o desenvolvimento de políticas públicas focalizadas e ações afirmativas que sejam capazes de dirimir essas inequidades”,

É a primeira vez que o estudo traz o recorte de gênero, mas não foi possível determinar a razão entre as duas taxas em Alagoas por não ter sido registrado nenhum homicídio de mulher branca nessa faixa etária em 2015. A taxa de mortalidade entre jovens negras, no
entanto, foi alta: 10,7 por 100 mil habitantes.

Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com informações do Atlas, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças, já descontado o efeito da idade, escolaridade, do sexo, estado civil e bairro de residência.

“Jovens e negros do sexo masculino continuam sendo assassinados todos os anos como se vivessem em situação de guerra”.
Dado revela a persistência da relação entre o recorte racial e a violência no Brasil. Enquanto a mortalidade de não-negras (brancas, amarelas e indígenas) caiu 7,4% entre 2005 e 2015, entre as mulheres negras o índice subiu 22%. 

O Atlas da Violência 2017, que analisou a evolução dos homicídios no Brasil entre 2005 e 2015 a partir de dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, mostra ainda que aconteceram 59.080 homicídios no país, em 2015. Quase uma década atrás, em 2007, a taxa foi cerca de 48 mil. 

Este aumento de 48 mil para quase 60 mil mostra uma naturalização do fenômeno por parte do poder público. Daniel Cerqueira, coordenador de pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que a naturalização dos homicídios se dá por processo históricos e econômicos de desigualdade no país, “que fazem com que a sociedade não se identifique com a parcela que mais sofre com esses assassinatos”, afirma.

Entre os estados, o de São Paulo foi o que apresentou a maior redução, 44,3%. Já no Rio Grande do Norte, a violência explodiu com um aumento de 232%. 

Mulheres negras também na mira do extermínio -Em 2015, cerca de 385 mulheres
foram assassinadas por dia. A porcentagem de homicídio de mulheres cresceu 7,5% entre 2005 e 2015, em todo o País.

As regiões de Roraima, Goiás e Mato Grosso lideram a lista de estados com maiores taxas de homicídios de mulheres. Já São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal, ostentam as menores taxas. No Maranhão, houve um aumento de 124% na taxa de feminicídios. 

Segundo o Atlas, em inúmeros casos, as mulheres são vítimas de outras violências de gênero, além do homicídio. A Lei Maria da Penha categoriza essas violências como psicológica, patrimonial, física ou sexual.

A Lei do Feminicídio, aprovada há dois anos, foi importante para dar mais visibilidade aos assassinatos de mulheres. As informações do número de feminicídios, porém, ainda não aparecem na base de dados do SIM, constando como homicídio de mulheres.

Segundo dossiê realizado pelo Instituto Patrícia Galvão, o feminicídio corresponde à última instância de poder da mulher pelo homem, configurando-se como um controle “da vida e da morte”.

Cerqueira entende que esta e outras categorizações de assassinatos, como o feminicídio, são importantes pois “desnudam o enredo por trás das mortes”. O Brasil ocupa a quinta posição em número de feminicídios num ranking de 83 países. 

“A criação de políticas públicas passa pelos dados angariados através dessas categorizações”, afirmando que, para combater esses assassinatos, o Estado não deve apenas se concentrar em aumentar o número de policiais nas ruas. 

Juventude perdida!? - O Atlas mostra também que o assassinato de jovens do sexo masculino entre 15 e 29 anos corresponde a 47,85% do total de óbitos registrados no período estudado. Nessa mesma faixa etária, em Alagoas, foram 233 mortes para cada 100 mil homens. Em Sergipe, 230 homens para 100 mil.

Embora registre 197,4 casos por 100 mil habitantes, Rio Grande do Norte foi o estado que apresentou maior aumento na taxa de homicídios de homens nesta faixa etária, 313,8 %, no
período entre 2005 e 2015.

Segundo o Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência e Desigualdade, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública acrescentou ao indicador de violência de jovens um indicador de desigualdade racial.

A partir disso, constatou-se que os jovens negros entre 12 e 29 anos estavam mais vulneráveis ao homicídio do que brancos na mesma faixa etária. Em 2012, a vulnerabilidade alcançava mais que o dobro.

Em lista dos cinco estados mais violentos do país, ocupando a 15ª posição nacional, em 2015. Segundo informações do Atlas, isso ganhou força devido ao Programa Estado Presente, de 2011, apesar da crise da greve dos policias militares no começo de 2017."A situação foi a mesma em Roraima, onde a taxa de jovens negras assassinadas foi 9,5 mortes por 100 mil habitantes, mas nenhum assassinato de jovem não negra".

No topo da desigualdade entre as taxas de homicídio estão os estados do Rio Grande do Norte, no qual as jovens negras morrem 8,11 vezes mais do que as jovens brancas, e do Amazonas, cujo risco relativo é de 6,97 (o risco relativo é a variável que considera as diferenças de mortalidade entre brancos e negros).
Em terceiro lugar aparece a Paraíba, onde a chance de uma jovem negra ser assassinada é 5,65 vezes maior do que a de uma jovem branca. Em quarto lugar vem o Distrito Federal, com risco relativo de 4,72.
Nos estados de Alagoas e Roraima não foi possível calcular a razão entre as duas taxas por não ter sido registrado nenhum homicídio de mulher branca nessa faixa etária em 2015. As taxas de mortalidade entre jovens negras nesses estados, no entanto, foram altas: 10,7 e 9,5 mortes por 100 mil habitantes, respectivamente.

Entre os homens, a chance de um jovem negro ser assassinado é 2,7 vezes superior à de um
jovem não negro. O índice é maior que o registrado no levantamento divulgado em 2015.A situação mais preocupante é a de Alagoas, onde um jovem negro tem 12,7 vezes mais chances de morrer assassinado do que um jovem branco. Na Paraíba essa diferença é de 8,9 vezes, índice também muito alto.

Para a representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, “a violência contra a juventude negra no Brasil atingiu índices alarmantes”.

Um afro abraço.
Claudia Vitalino.

Fonte:https://www.cartacapital.com.br/https://anistia.org.br

Reforma trabalhista: Estácio demite 1,2 mil docentes

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Por Marianne Menezes
Menos de um mês após a entrada em vigor da Reforma Trabalhista, a Universidade Estácio de Sá comunicou a demissão de 1,2 mil professores no último dia 5. A intenção da instituição é contratar profissionais pelas novas regras, adotando o sistema de trabalho intermitente.
“Até a Estácio demitir em massa, a ficha da sociedade sobre a crueldade da Reforma não tinha caído”, avalia Mário Maturo, diretor do Sindicato dos Professores do Município do Rio de Janeiro e Região (Sinpro). “O número de desligamentos nunca foi tão alto: só no Estado do Rio, 450 docentes perderam seus empregos.”
Uma das preocupações de Mário é a rescisão dos contratos dos docentes. Com as novas regras da reforma trabalhista, a documentação não precisa mais passar pelo crivo do sindicato. “Ainda não sabemos se os professores vão identificar possíveis erros na homologação e correr atrás de seus direitos”, diz. “O sindicato está de portas abertas a todos envolvidos na demissão feita pela Está- cio e em outras faculdades”.

Em nota, a universidade informa que “promoveu uma reorganização em sua base de docentes” ao final do segundo semestre de 2017 e que a mudança “tem como objetivo manter a sustentabilidade da instituição”.
Fonte: ADUFRJ

Ziraldo: cartunista, escritor e Doutor Honoris Causa

Foto: Pedro Henrique Carvalho/FCC

Por Kelvin Melo

“Quando eu nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra, disse: vai, Ziraldo, ser amigo do Carlos Drummond de Andrade”. Foi com essa irreverência que o cartunista e escritor iniciou o discurso de agradecimento após ser consagrado com o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ, em 27 de novembro, no Colégio Brasileiro de Altos Estudos. “O título da Universidade Federal do Rio de Janeiro é, para mim, um dos maiores, senão o maior prêmio que já recebi em toda minha vida, só comparável à honra de me saber amigo do imenso poeta de Minas”, completou.
Na mesma solenidade, foi apresentado um vídeo com o projeto de restauração do mural “Última Ceia”, pintado pelo homenageado em uma das paredes do Canecão, em 1967. O desenho arquitetônico está pronto: a recuperação do painel de 32 metros de comprimento por seis metros de altura seria acompanhada de salas menores com os ateliês de suporte ao trabalho e de outras atividades artísticas, como exposições da obra de Ziraldo. Tudo aberto ao público, que poderia ver como uma restauração é feita. A iniciativa, porém, esbarra na falta de recursos.
Coordenador do Fórum de Ciência e Cultura, Carlos Vainer estima que todo o projeto, com reforma parcial do prédio para funcionamento de uma “infraestrutura mínima”, custaria entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,5 milhão. A ideia é buscar apoio de empresas por políticas de incentivo fiscal à cultura. Mas mesmo um “crowfunding”, financiamento coletivo com depósito em uma conta, não está descartado. Neste caso, como a cidade já estaria em um período de “baixa rotação”, o lançamento da campanha ocorreria após o carnaval.
Professora da Escola de Belas Artes e coordenadora do curso de composição de interiores responsável pelo projeto executivo do laboratório de restauro, Franci Furlani reforça o pleito por verbas: “Qualquer parceria é bem vinda”. Ziraldo, com 85 anos, avisou que pretende participar dos trabalhos. Ele já imagina qual será a sensação ao ver o mural inteiramente refeito: “Aí vai ser o máximo”
Fonte: ADUFRJ