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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Nordeste vai receber metade dos viajantes brasileiros nos próximos seis meses

nordestebr

Os estados do Nordeste deverão ser os mais visitados do País nos próximos seis meses. A região foi apontada como destino de 50,7% dos brasileiros que pretendem viajar no período, segundo pesquisa do Ministério do Turismo, realizada em agosto. A região Sul deve receber 18,5% dos potenciais viajantes, ficando em segundo lugar na preferência dos brasileiros.
O levantamento traz também um dado inédito. Pela primeira vez, em 11 meses, o Sul supera o Sudeste como destino de preferência dos entrevistados nas sete maiores capitais do País. O resultado se deve à campanha promovida pelo Ministério do Turismo, que divulga os atrativos dos estados da região: Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Com o lançamento da versão 2017 do Mapa do Turismo Brasileiro, a região Sul ampliou o número de municípios com potencial para o desenvolvimento do turismo em quase 30%, com perspectiva de ampliação da oferta de atrativos.
 “O Brasil tem um enorme potencial para receber turistas o ano todo. Temos opções de sol e praia, turismo de natureza, gastronomia, cultura. No Ministério do Turismo, temos investido em promoção, melhoria da infraestrutura e qualificação da força de trabalho para apoiar os estados a receber cada vez melhor os turistas”, afirmou o ministro do Turismo, Marx Beltrão.
No Sudeste, destinos turísticos do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo devem receber 17,3% dos brasileiros que planejam viajar até fevereiro de 2018. O mapa da região foi redesenhado e ampliado em 77%, com a incorporação de 496 novos municípios com vocação para o turismo.
O Norte e o Centro-Oeste receberão, respectivamente, 4,2% e 9,3% do contingente de brasileiros com planos futuros de viagem. As duas regiões também ampliaram o número de destinos no Mapa do Turismo Brasileiro, ferramenta de gestão gerenciada pelo Ministério do Turismo.
Intenção de viagem
O desejo de viajar nos próximos seis meses, segundo a pesquisa, manteve estabilidade na comparação com agosto do ano passado. Em 2016, 21,4% dos brasileiros manifestaram perspectiva de viagem, percentual que chegou a 21,7% este ano.
A pesquisa é realizada nas principais capitais do País: Brasília, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Juntas, essas cidades respondem por 70% do fluxo de turismo doméstico.
Fonte: Portal Brasil, com informações do Ministério do Turismo

Tia Ciata (Hilaria Batista de Almeida, 1854-1924)


Biografia de  Alvaro Neder

Tia Ciata era uma mulher da Bahia que teve um papel fundamental no nascimento do samba urbano carioca como gênero. Profissional ativo da cultura de sua pátria, desenvolveu um centro cultural informal em sua casa, onde iniciaria os maiores compositores e músicos do Rio de Janeiro de seu tempo nas sutilezas do samba da Bahia. Como resultado, em 1917, o primeiro samba a ser gravado, "Pelo Telefone", foi uma composição coletiva feita em sua casa, na qual ela mesma participou, juntamente com outros frequentadores João da Mata, Mestre Germano, Hilário Jovino Ferreira Sinhô, e Donga. As letras eram de  Mauro de Almeida , o uso da música popular "Rolinha" na primeira estrofe de Didi da Gracinda. Tia Ciata,  aka Tia Assiata, chegou ao Rio, chegando da Bahia por volta de 1875. 

Ela residiu em outros dois lugares antes de se instalar, por volta de 1899, na casa histórica da 117 rua Visconde de Itaúna, perto da Praça Onze. Durante o dia, ela vendia tidbits no centro da cidade e, à noite, reinava em sua casa como organizadora de encontros para gente negra. Na religião folk-magic conhecida como Candomblé, Tia Ciata era uma espécie de cabeça, o babalaô-omin. Nessa capacidade, ela realizaria rituais de adoração em sua residência dedicada aos orixás africanos. É importante notar que, nesse período, não havia lugares públicos para socializar os habitantes pobres ou negros. Assim, os lugares de reunião desses segmentos da sociedade eram essencialmente casas familiares. A casa de Tia Ciata tornou-se lendária porque não só ela realizaria sessões regulares do Candomblé, mas também porque essas sessões foram seguidas por um samba, uma espécie de festa onde as pessoas podem beber, comer, brincar, dançar a música, conhecer um ao outro e formar casais românticos. Na verdade, como os sambas foram perseguidos pela polícia, eles eram freqüentemente disfarçados de atividades religiosas. Assim, nestas reuniões festivas, a casa de Tia Ciata tornou-se amplamente conhecida no Rio. Não só os negros, mas também os políticos, os boêmios, os músicos e os batuqueiros (percussionistas) se reuniam ali, atraídos por suas excelentes habilidades culinárias e a música. As festas podiam durar vários dias seguidas, e as pessoas passavam o tempo todo sem retornar às casas até que a festa terminasse. A casa de Tia Ciata tornou-se amplamente conhecida no Rio. Não só os negros, mas também os políticos, os boêmios, os músicos e os batuqueiros (percussionistas) se reuniam ali, atraídos por suas excelentes habilidades culinárias e a música. As festas podiam durar vários dias seguidas, e as pessoas passavam o tempo todo sem retornar às casas até que a festa terminasse. A casa de Tia Ciata tornou-se amplamente conhecida no Rio. Não só os negros, mas também os políticos, os boêmios, os músicos e os batuqueiros (percussionistas) se reuniam ali, atraídos por suas excelentes habilidades culinárias e a música. As festas podiam durar vários dias seguidas, e as pessoas passavam o tempo todo sem retornar às casas até que a festa terminasse. 

O intercâmbio cultural foi o foco central da casa de Tia Ciata. Sendo um precursor dos movimentos migratórios de negros que chegam da Bahia ao Rio com o fim da escravidão (1888, cinco anos depois de sua chegada) e a desmobilização maciça, em 1897, das tropas de Baianos envolvidas na luta contra o líder religioso fanático Antônio Conselheiro, Tia Ciata estava à beira de um movimento que influenciaria profundamente a cultura nacional através de sua ascensão sobre a importante capital do Rio de Janeiro. Ela própria era uma dançarina de grife na melhor tradição do samba popular da Bahia, e ela faria questão de iniciar os cariocas nesses mistérios. E, na verdade, conseguiu isso, como os mais importantes compositores e músicos da época, como Caninha, Joao da Baiana, Donga, Pixinguinha, Sinhô e Heitor dos Prazeres, juntamente com nomes menos representativos como João da Mata, Mestre Germano, Minan, Didi da Gracinda e João Câncio eram regulares em sua casa. Os discípulos que continuaram seu trabalho foram seu filho Eduardo da Tia Ciata, suas netas Lili da Tia Ciata (que se tornou o porta-estandarte do rancho Macaco é Outro) e Tia Cincinha, seu neto Buci Moreira, Ministrinho da Cuíca, Dino e Santa , entre outros. Tia Ciata também dirigiu o rancho Rosa Branca, que jogou durante o Carnaval com suas Pastoras. Naquela rede estreita entrelaçando Baianos e Cariocas, Tia Ciata suas netas Lili da Tia Ciata (que se tornou o porta-estandarte do rancho Macaco é Outro) e Tia Cincinha, seu neto Buci Moreira, Ministrinho da Cuíca, Dino e Santa, entre outros. Tia Ciata também dirigiu o rancho Rosa Branca, que jogou durante o Carnaval com suas Pastoras. Naquela rede estreita entrelaçando Baianos e Cariocas, Tia Ciata suas netas Lili da Tia Ciata (que se tornou o porta-estandarte do rancho Macaco é Outro) e Tia Cincinha, seu neto Buci Moreira, Ministrinho da Cuíca, Dino e Santa, entre outros. Tia Ciata também dirigiu o rancho Rosa Branca, que jogou durante o Carnaval com suas Pastoras. Naquela rede estreita entrelaçando Baianos e Cariocas, Tia Ciata foi a mais importante Tia (tia) da Bahia, compartilhando com as suas mulheres da cidade Tia Dadá (moradora do bairro do Rio Saúde) e Tia Bebiana (que morava no Largo de São Domingos) as honras de manter verdadeiros centros culturais que introduziram os cariocas no cultura da Bahia.

Garoto de morro...

Resgate de Luciano Hortencio
Garoto nascido em barraco de zinco
No morro sem água de barro batido
Que veste farrapo de roupa esmolada
E come alimento de feira acabada.
Garoto que pega traseira de bonde
E corre e se esconde do homem fardado
Garoto que dorme sonhando pecado
Que lê na cartilha do homem marcado
Garoto que furta ao comando da fome
Que atende por Zé, ou Tião, qualquer nome
Garoto projeto de bamba no duro
Garoto manchete de crime futuro.
Bem outro seria teu lindo destino
Se o morro em que vives tivesse outro nome
Enquanto és criança garoto menino
Enquanto é possível mudar tua sorte.
Jair Rodrigues - GAROTO DE MORRO - Jacobina - Murilo Latini.
Álbum: O samba é mais samba com Jair Rodrigues.
Disco Philips P 632 758 L.
Arranjo: Maestro Portinho.
Fonograma gentilmente enviado pelo amigo Marcos Costa.
Ano de 1965.
Coisas que o tempo levou.
Marlene - GAROTO DE MORRO -  Jacobina - Murilo Latini -
 apresentada no Teatro Rival.
Ano de 1990.
Fonograma gentilmente enviado pelo amigo Zéllo Visconti.
Coisas que o tempo levou.

Aldir Blanc: “Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica”

aldir_blanc
Por Pedro Alexandre Sanches
Entre a santa e a meretriz/ só muda a forma com que as duas se arreganha/ eu só me queixo se criar teia de aranha, prossegue Maria João na feminina O Coco do Coco, lançada originalmente em 1996 pela paraense Leila Pinheiro. E lá se vai para a fogueira mais uma obra artística atentatória da “moral e dos bons costumes”.
Não é só O Coco do Coco. Letrista visado pela censura da ditadura anterior, o carioca Aldir teria parte substancial de uma obra colossal destroçada pelos dentes arreganhados e o ouvido que tudo escuta do neofascismo popular brasileiro. Vale para as ásperas parcerias mais recentes com o também carioca Guinga, como O Coco do Coco, e para a série histórica de arranhões musicais dos anos 1970 e 1980 em dupla com o mineiro João Bosco.
É bem possível que o jovem do MBL visse macumba e feitiçaria em versos de Bosco & Blanc, como levou as minhas cuecas pro bruxo rezar/ coou meu café na calça pra me segurar (de Incompatibilidade de Gênios, 1976) ou costurou na boca do sapo o resto de angu/ a sobra do prato que o pato deixou/ depois deu de rir feito Exu Caveira/ marido infiel vai levar rasteira (de Boca de Sapo, de 1979), ambas interpretadas na origem pela mãe preta de todos nós, Clementina de Jesus.
“Estamos vivendo uma ditadura com luvas de pelica, fedendo a fezes”, afirma Aldir sobre o episódio da mostra Queermuseu, promovida e cancelada sob pressão pelo Santander Cultural em Porto Alegre (RS), terra da maior intérprete do imaginário de Blanc & Bosco, Elis Regina.
“Coco do Coco inspira-se na belíssima tradição picaresca de músicas nordestinas, baiões, cordel, que tratam o sexo de forma escrachada, e verdadeira”, ensina o mestre das palavras. “Algumas feministas politicamente corretas sentaram o pau, e o fizeram porque se arvoram em saber uma porção de merdas, mas não conhecem picas de cultura popular”, provoca, destemido em tocar pontos vulneráveis.
Hoje com 71 anos, Aldir vive entre a reclusão e altos papos via e-mail, ou entre o silêncio e o grito, como dizia a letra de O Chefão. Cantada em 1974 pela paulistana Marlene, a balada noir O Chefão foi retomada em 2014 pela mineira Maria Alcina, outra intérprete inaugural de Bosco & Blanc, com as antológicas Kid Cavaquinho e Beguine Dodói (1974).
Meses antes da reeleição de Dilma Rousseff, Alcina cantava a necessidade de manter as janelas sempre bem fechadas/ contra o perigo de um golpe/ contra o perigo de um golpe de ar. Pode ser mera simbologia, mas o autor de O Chefão ataca frontalmente temas e termos tornados tabus na oficialidade impopular brasileira de 2017. “Sociólogos, historiadores, professores e artistas (como o imenso Raduan Nassar) mais importantes do que eu já escreveram que estamos num estado de exceção”, afirma.
“Aqui ficaram todos os torturadores soltinhos da silva, conspirando. O golpe voltou, um golpe constitucional. Isso existe. A Constituição pode abrir frestas para vários tipos de golpes, e só babacas dizem ‘se está na Constituição, não é golpe’. Vão se fifar, burros – ou coniventes”, escreve, em pena ferina que transforma Michel Temer em “Temeroso” e “Temereca” e Janaína Paschoal em “Dra. Janaraca”.
“O que vi de palhaço que pegava jabá, corrupto até a alma, considerando julgamentos de pedaladas ‘técnicas e corretas’, sem levar em consideração que Tribunardis levava bola quando parlamentável, Anastasia é corrupto, Cunha já está com a mão na grade, sem falar da Dra. Janaraca. Pelo amor dos meus netinhos, sejam golpistas menos cínicos e safados.”
Jabaculê, jargão usado para designar o “mensalão” com que gravadoras suborna(va)m meios de comunicação para veicular este ou aquele artista, é vocabulário presente desde sempre no léxico de Aldir. Jabaculê/ vixe, espetacular/ assunto assim às vez é mió calar, cantou Maria Alcina em Foi-Se o Que Era Doce, também em 1974, entre referências culinárias a inhame, bobó, frango assado, cuscuz e maracujá.
A verve faminta de Blanc sempre privilegiou os diversos prazeres da carne, mesmo na voz solene de Elis. Os boias-frias quando tomam umas birita espantando a tristeza/ sonham com bife à cavalo, batata frita/ e a sobremesa é goiabada cascão com muito queijo, gravou Elis em O Rancho da Goiabada (1978), relicário assombroso de um Brasil que viria a resplandecer após três décadas, sob as caravanas de Luiz Inácio Lula da Silva.
São pais de santo, paus de arara, são passistas/ são flagelados, são pingentes, balconistas, desfilava o rancho, quando o comandante plantonista deste bordel dos Estados Unidos era Ernesto Geisel. “Dizem que ninguém é profeta em sua própria terra, mas João e eu fomos.
Veja o caso de De Frente pro Crime”, diz Aldir, citando o samba lançado pela baiana Simone em 1974, o mesmo ano-susto em que Elis apresentou Dois pra Lá, Dois pra Cá (e a ponta de um torturante/ Band-aid no calcanhar) e O Mestre-Sala dos Mares.

“Mais de 40 anos depois, De Frente pro Crime ainda retrata o Rio. Sabe o que parte da crítica dizia desses sambas? ‘João Bosco e Aldir Blanc, com suas habituais obsessões com uma violência inexistente’. Gostaria de soltar todos esses críticos no Jacarezinho para uma injeção de Brasil na bunda.”
Previsto para outubro, o próximo álbum de João Bosco trará uma nova parceria da dupla, retomada em 2009, após duas décadas de afastamento. Duro na Queda trata de uma Janaína que certamente não é a Paschoal: Eu não sei viver sem minha Janaína/ mulata de olhos claros, vale o mundo/ no morro, é meu barraco com piscina.
“Começa com um clima sombrio dos sambas de antes e se abre, como se a Esperança Equilibrista se recusasse a cair”, define Aldir, em referência cruzada ao hino de anistia O Bêbado e a Equilibrista (1979), ápice do trio Blanc-Elis-Bosco.
Tal qual as bijuterias banhadas a ouro dos anos 1970, Duro na Queda encerra muito do mistério poético do ex-médico psiquiatra Aldir Blanc. Nascido no Estácio de Ismael Silva e Luiz Melodia e criado na Vila Isabel de Noel Rosa e Martinho da Vila, ele transpira sensibilidade suburbana a cada verso.
“O que mais me revolta é que esse Brasil sempre esteve na cara de todos, só que aparece maquiado até hoje”, autodefine-se. “Temereca é o maior criminoso e entreguista do País. Sou contra a pena de morte, mas, quando vejo o que esse merda está fazendo, fico em dúvida se não seria melhor julgá-lo com rigor, direito amplo de defesa, mas com fuzilamento incluído na pena. Institucionalmente, Temeroso é muito pior que Marcola e Fernandinho Beira-Mar juntos.”
Duro na queda, Aldir também visita a ternura. Ela aparece quando fala das cantoras que o têm interpretado, inclusive Clara Nunes, Maysa, Elizeth Cardoso, Beth Carvalho, Nana Caymmi e Dorina (que em 2016 lançou CD devotado a ele).
“Essa relação com as cantoras é uma das grandes alegrias da minha vida profissional. Se as lindas homenagens quase simultâneas de Dorina, Maria João e Mariana Baltar (ainda inédita) não me matarem, nem preciso fazer novos exames. Por trás da pose, sou um tremendo chorão. Às vezes, um neto telefona de outro estado e minha mulher tem de tirar o telefone da minha mão e dizer: ‘Peraí um pouco! Deixa ele acabar de chorar!’ E é assim também com música.”

Há que se acrescentar, aí, a literatura: por meio de financiamento coletivo, Aldir acaba de bater a meta de 28 mil reais para completar a coleção Aldir 70, de crônicas reunidas em cinco volumes.
Por ora, Aldir prossegue incólume ao moralismo de fachada engarrafado na pátria de Donald Trump e encampado pela juventude MBL. Ainda que a sanha venha a colhê-lo, gritarão em silêncio os versos de Querelas do Brasil, eternizada por Elis em 1978 e resistente, até hoje, como um dos nossos mais cruéis autorretratos: O Brasil nunca foi ao Brazil/ (…) o Brazil não merece o Brasil/ o Brazil tá matando o Brasil.
Fonte: Carta Capital