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sábado, 22 de julho de 2017

Temer corta Fies dos mais pobres e culpa Dilma por "distribuição indiscriminada de bolsas"


Jornal GGN - O governo Temer cortou 2/3 das vagas destinadas aos estudantes mais pobres (renda familiar de até 3 salários mínimos) e entregou às instituições financeiras privadas a análise da concessão de crédito à camada que recebe até 5 salários mínimos. Com isso, é possível que milhares de estudantes não consigam preencher os requisitos dos bancos, provocando uma redução ainda maior na distribuição de bolsas.
 
Segundo reportagem da revista Época, a justificativa para essas mudanças é que o Fies precisa ficar mais "sustentável", pois Dilma Rousseff fez uma "distribuição indiscriminada" de bolsas até 2015 e, agora, o programa está com um rombo de R$ 3,1 bilhões e taxa de mais de 40% de inadimplência.
 
As alterações no Fies - que hoje beneficia 117 mil estudantes, o que representa uma queda de quase 50% em relação a 2016 - feitas por Temer ocorreram há duas semanas, a partir da edição da Medida Provisória 785. 
 
Novas regras foram criadas, com destaque para a divide o programa em 3 modalidades: o Fies 1 será para estudantes com renda familiar de até 3 salários mínimos, que terão direito a 100 mil vagas; o Fies 2, para estudantes com renda familiar de até 5 salários mínimos, exclusivamente das regiões Nordeste, Centro-Oeste e Norte. Serão 150 mil vagas. O Fies 3 propõe 60 mil vagas para estudantes de todo o País com renda familiar de até 5 salários mínimos.
 
Ao todo, portanto serão 310 mil vagas em todo o País a partir de 2018.
 
"O governo passa a ser diretamente responsável pelo subsídio apenas dos estudantes com renda familiar de até três salários mínimos. A quantidade de beneficiários nessa faixa será limitada a 100 mil estudantes por ano. Antes, o número de vagas para os estudantes de baixíssima renda chegava a 300 mil por ano", diz a reportagem. 
 
"A maior inovação da MP se dará nas duas modalidades desenhadas para estudantes com renda de até cinco salários mínimos. Pela primeira vez, o governo transferirá para instituições financeiras a concessão do crédito e a análise de risco."
 
A publicação não escondeu que, com essas mudanças, o Fies vai privilegiar quem tem condições de obter financiamento com o banco em detrimento daqueles cuja situação social é muito mais vulnerável. Isso porque é "comum" que família com até 3 salários mínimo tenham "dificuldade para comprovar seus ganhos por conta da informalidade."
 
"Na prática, não é segredo que levarão vantagem os primeiros (estudantes) que têm notas mais altas e perfil socioeconômico mais alinhado com o tipo de cliente a quem um banco normalmente concede crédito", apontou.
 
O próprio governo Temer, por sua vez, não esconde que os mais pobres serão prejudicados porque "não conseguirão passar pelo crivo dos bancos para obter crédito".
 
“Sabemos que alguns alunos mais pobres ficarão de fora, mas tínhamos de garantir a sustentabilidade do programa”, disse Pedro Pedrosa, diretor de gestão de fundos e benefícios do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) do Ministério da Educação.
 
Ainda de acordo com a reportagem, "os bancos terão acesso a fundos constitucionais das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste para oferecer crédito para estudantes dessas regiões. No caso do Sul e do Sudeste, o governo diz que o recurso virá do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)."
 
"Resta saber o que o governo terá de dar em troca para que os bancos aceitem abraçar esse ônus", acrescentou.
 
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Não fuja do assunto: sexualidade e gênero devem fazer parte do diálogo entre mães, pais, filhas e filhos

"Cada pai, cada mãe, terá seus sonhos e suas angústias em relação ao início da vida sexual dos filhos. Não podemos negar, no entanto, como é diferente na sociedade, a simbologia para a mulher e para o homem" - Lívia Maria Casanova Martins é mãe de Carmem, de 19 anos, e Alexandre, de 16 (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press).

 por Valéria Mendes
Por mais que não seja simples, que ainda existam mitos, tabus e preconceitos, se o objetivo é um mundo mais seguro e justo, famílias não podem fugir desses assuntos.
Ao contrário do que comumente se pensa, educação sexual e educação de gênero vão muito além de temas como anatomia, reprodução, gravidez indesejada e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis. O alcance de um diálogo aberto e sincero, de um vínculo afetivo forte entre pais, mães, filhos e filhas e que contemple a diferença e o respeito ao outro é transformador, não apenas do ponto de vista subjetivo, mas também coletivamente. No entanto, não é tarefa fácil, porque os adultos precisam encarar as próprias inseguranças e os próprios preconceitos e medos em relação a temas que são de extrema importância porque perpassam a existência de todo ser humano. 

A psicóloga Andréa Moreira Lima, doutora em psicologia social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com pesquisa de doutorado na Universidade de Coimbra, em Portugal, e professora do Centro Universitário UNA, afirma que é preciso ir além da transmissão de informação e promover diálogos e espaços de ruptura com a visão moralista e conservadora sobre sexualidade e gênero que reproduzem valores machistas, heteronormativos e homofóbicos. “As orientações sobre sexualidades devem ser problematizadas para além dos modelos padrões impostos culturalmente. Por isso, cada vez mais a palavra ‘sexualidades’, no plural, é usada para demarcar a diversidade e legitimidade das diferentes práticas, orientações e identidades. É possível e necessário reconhecer toda a pluralidade humana, bem como afirmar a importância do prazer sexual e do direito ao seu livre exercício, de modo que o cunho proibicionista ainda vigente na sociedade não cause danos à saúde mental e sexual das pessoas”, salienta.

Orientar filhos e filhas adolescentes sobre sexualidade não propicia uma iniciação precoce na vida sexual. Ensinar sobre diversidade sexual também não acarretará qualquer mudança de orientação sexual ou de identidade de gênero. “Na realidade, esse diálogo serve para construir maior compreensão e aceitação, por parte dos membros da família, da sexualidade e suas formas de expressão e vivência”, defende a especialista.

"A autoaceitação já é em si um processo difícil, doloroso e de autorreflexão. Fora isso, sempre tive a preocupação de como seria a aceitação social e demorei muito para tornar público o fato de ser um homem trans" - Gael Benitez, 21 anos, estudante de jornalismo (foto: Foto: Yuran Khan / Arquivo Pessoal )

Fato é que pesquisa realizada pelo Núcleo de Tendências e Pesquisa do Espaço Experiência da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) mostra que, entre os jovens de 18 a 34 anos, 72,1% são heterossexuais, 16,1% são homossexuais e 11,8% se declararam bissexuais. Os dados foram divulgados em novembro de 2015 e 1.500 pessoas de todas as regiões do país responderam à pesquisa. Pelas declarações, há mais bissexuais entre as mulheres e mais homossexuais entre os homens. No caso deles, 66,3% são heterossexuais, 25,2% são homossexuais e 8,6% são bissexuais. Já em relação a elas, 77,6% são heterossexuais, 7,61% são homossexuais e 14,8% são bissexuais.

Por outro lado, a Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Pessoas Trans e Intersexuais (Ilga) divulgou no Dia Internacional contra a Homofobia e Transfobia, celebrado em 17 de maio, uma pesquisa que mostra que 68% das pessoas entrevistadas ficariam muito preocupadas se um filho ou uma filha dissessem amar alguém do mesmo sexo. O levantamento ouviu 96 mil pessoas em 65 países. Porém, 67% afirmaram concordar com a aplicação dos direitos humanos a todos, independentemente da orientação sexual.

APREENSÃO 

Se quisermos um mundo mais justo e seguro, os temas sexualidade e gênero devem ser tratados de forma que contemplem a dimensão dos direitos sexuais, da diversidade sexual e da igualdade entre os gêneros. Lívia Maria Casanova Martins é mãe de dois adolescentes, Carmem, de 19, e Alexandre, de 16. A psicanalista e terapeuta corporal admite que é difícil orientá-los da mesma forma, em razão do contexto cultural sexista e machista que ainda é uma realidade no Brasil.

Com o relato de sonhos, ela evidencia o sentimento que veio à tona com o início da adolescência de cada um e que também exemplifica como a desigualdade de gênero gera apreensões diferentes nas famílias em relação à sexualidade de meninos e meninas.“Foi algo que chamou a minha atenção em toda a minha vivência da maternidade. Gosto de lembrar dos meus sonhos, eles me ajudam a pensar sobre a realidade. Lembro-me de quando os seios da Carmem começaram a se desenvolver e algumas questões passaram a surgir para ela. Sonhei que ela estava descendo um barranco e chovia muito, muito mesmo. Logo abaixo do barranco tinha um rio. Minha filha escorregou e começou a despencar e eu não conseguia ajudá-la. Com o Alexandre, eu sonhei com um campo que, ao lado, tinha uma mata fechada. Meu filho entrou tranquilamente e eu, não. Era a constatação do ‘não posso mais estar junto’. A sexualidade é cada um que vive, mesmo que a gente fale e converse, são eles que vão vivenciar. Cada pai, cada mãe, terá seus sonhos e suas angústias em relação ao início da vida sexual dos filhos. Não podemos negar, no entanto, como é diferente na sociedade, a simbologia para a mulher e para o homem e que essa simbologia não é só definida pelo que a gente quer, mas pelo contexto em que estamos inseridos”, reflete.
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Para além da biologia:

Especialistas falam sobre a importância de aceitação e acolhimento das dúvidas, inseguranças e decisões colocadas pelos adolescentes no contexto familiar. O silêncio é uma forma de comunicação que transmite insegurança


Pesquisa divulgada no dia 13 pelo site “Mundo Psicólogos” mostra que a procura por profissionais especializados em sexualidade cresceu 173%, na comparação dos quatro primeiros meses deste ano em relação a 2015. De acordo com o levantamento, de cada 10 usuários da plataforma, sete procuram um especialista para solucionar conflitos relacionadas a identidade de gênero e orientação sexual. Os outros 30% querem ajuda para resolver problemas como disfunções sexuais. Outra informação interessante é que o pedido de ajuda vem, em grande parte, das famílias que não sabem lidar com a homossexualidade ou a transexualidade dos filhos e filhas.
"Do ponto de vista subjetivo, falar sobre sexualidade remete à própria experiência e muitos pais e mães ainda não superaram as próprias questões" - Daniela Silveira, psicóloga clínica com formação em terapia sexual sistêmica e terapia de casal da clínica Le Sense (foto: Arquivo Pessoal )

Daniela Silveira, psicóloga clínica com formação em terapia sexual sistêmica e terapia de casal da clínica Le Sense, afirma que, apesar de as famílias reconhecerem a importância do diálogo sobre sexualidade, elas não se sentem tão preparadas para conversar com os jovens sobre os temas contemporâneos que envolvem esse universo. “Do ponto de vista subjetivo, falar sobre sexualidade remete à própria experiência e muitos pais e mães ainda não superaram as próprias questões. É um problema, porque, sem diálogo franco, positivo e confortável, caminhamos com essa latência de não encarar o tema de um ponto de vista mais maduro”, afirma.

A psicóloga Andréa Moreira Lima lembra que o silêncio é uma forma de comunicação que transmite insegurança e fortalece mitos sobre o assunto, como a associação da sexualidade a experiências ruins, erradas ou dolorosas. Para ela, por mais que pareça constrangedor tratar de assuntos como sexualidade e gênero com os filhos, essa experiência, quando realizada de forma respeitosa e acolhedora, pode contribuir para a ressignificação dos próprios pais e mães sobre suas formas de lidar com a sua sexualidade e seu gênero. “Penso que é no convívio familiar e social, nas suas mais diferentes configurações, que podemos estimular e contribuir para a superação de problemas estruturais e cotidianos relacionados à diversidade da sexualidade, à identidade de gênero e às relações afetivas e amorosas”, conclui.

Para ela, grande parte do processo de educação sexual tem como foco principal a discussão da sexualidade a partir de uma leitura estritamente biológica e preocupada com assuntos estritamente relacionados à saúde pública. “Discutem-se muito questões ligadas à gravidez indesejada na adolescência e à prevenção de DST/AIDS. Essa abordagem é de grande importância, claro. Contudo, para além disso, é preciso nos atentarmos, também, aos aspectos psicossociais da sexualidade e do gênero”, ressalta.

O foco exclusivo nas questões biológicos e a negligência de outros aspectos que envolvem gênero e sexualidade, de acordo com a especialista, gera impactos negativos, como a reprodução de desigualdades sexuais e de gênero. “Além disso, pelo fato de, na nossa cultura, a comunicação sobre sexualidade ser realizada de forma diferente para meninos e meninas, a partir dos limites e possibilidades impostos pelos papéis de gênero, isso implica, também, reprodução do modelo de submissão e opressão das mulheres e do modelo de dominação e violência masculina. Em famílias heterossexuais, apesar de os pais, muitas vezes, se autoafirmarem como experientes, eles preferem deixar a cargo apenas das mães o papel de educação sexual, mais uma vez reproduzindo um modelo sexista e machista de divisão do trabalho, no qual os encargos domésticos são concentrados nas mães, enquanto os encargos públicos ficam, por sua vez, reservados aos pais”, observa.
"Tem muito gente que, em casa, não tem liberdade para expor suas dúvidas. Entre aprender na escola e aprender no mundo, é bem melhor a escola" - Bia Chiari, de 16 anos, (foto: Gladyston Rodrigues/EM/D.A Press)

Ginecologista com atuação em sexologia e membro da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig), Gerson Lopes concorda que as famílias brasileiras ainda são omissas para conversar com adolescentes sobre temas que envolvem a sexualidade. “Elas se preocupam em passar a informação correta sobre prevenção de gravidez e DSTs, mas o que pais e mães muitas vezes se esquecem é que a própria postura deles em relação a esses temas integra o processo educativo dos jovens. Se o adolescente é criado em um ambiente em que o pai é dominador e a mãe submissa, esse filho vai interiorizar esse comportamento e pouco vai adiantar o discurso sobre igualdade de gênero”, diz.

Para ele, todas as questões que envolvem o processo de educação sexual e educação de gênero são construídas na relação diária das famílias com filhos e filhas. Segundo o sexólogo, mostrar humildade e assumir que não sabe, não é (ou não deveria ser) razão para se sentir intimidado diante de uma pergunta ou comentário do adolescente. “Dizer ‘não sei’ e se mostrar interessado em pesquisar junto vai aproximar e fortalecer o vínculo entre os pais, mães, filhos e filhas. Mas o que ocorre é que, para ficar livre da questão, os adultos despistam e torcem para que os jovens esqueçam aquilo. A mensagem que é captada é que, naquele ambiente, alguns temas não devem ser abordados”, salienta.

CONFIANÇA

Bia Chiari, de 16 anos, estuda em um colégio particular de Belo Horizonte e afirma encarar com tranquilidade as conversas sobre sexualidade com a mãe e a avó materna. As duas são, para ela, mulheres em quem pode confiar e com quem ela não se sente envergonhada para esclarecer suas dúvidas. Já com o pai, ela não se sente tão à vontade e acredita que seja pelo fato de ele ser homem. A jovem tem duas irmãs mais novas, uma de 13 e outra de 12, e diz que já consegue, inclusive, ajudá-las nas questões que envolvem o início da adolescência, como a primeira menstruação e as mudanças no corpo. “Minhas irmãs sempre me contam tudo e me perguntam as coisas que querem saber”, conta.

A jovem diz que não confia na internet como fonte de informações. “Prefiro conversar com pessoas que sabem e tanto minha mãe quanto minha avó são abertas para isso”, afirma. Bia está no primeiro ano do ensino médio e, para ela, é importante que a escola aborde esse tema com os jovens: “Tem muito gente que, em casa, não tem liberdade para expor suas dúvidas. Entre aprender na escola e aprender no mundo, é bem melhor a escola”, acredita.
"É possível e necessário reconhecer toda a pluralidade humana, bem como afirmar a importância do prazer sexual e do direito ao seu livre exercício, de modo que o cunho proibicionista ainda vigente na sociedade não cause danos à saúde mental e sexual das pessoas" - Andréa Moreira Lima, psicóloga e doutora em psicologia social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) (foto: Acríssio Luiz Gonçalvez / Arquivo Pessoal)

Para Andréa Moreira Lima, a criança e o adolescente que conhecem seu corpo, seus sentimentos e emoções de forma saudável e com responsabilidade, tendem a se tornar adultos mais responsáveis e conscientes de seus direitos e deveres nas relações de gênero e sexualidade. “É uma tendência internacional que questões acerca da educação sexual e de gênero sejam trabalhadas pelas famílias e pelas escolas para a construção de uma sexualidade mais saudável e para a promoção de uma cultura de respeito à diversidade sexual e de gênero”, diz. A psicóloga lembra ainda que é preciso saber escutar o filho ou filha sem julgamentos e de forma acolhedora.

SOU GAY

O sexólogo Gerson Lopes reforça que a sexualidade permeia uma série de aspectos que vão muito além da informação propriamente dita e que envolvem sentimento e afeto. “Infelizmente, a educação sexual ainda é muito sexista: reprime o desejo da menina e incentiva o sexo cedo para o menino, para ‘garantir’ a heterossexualidade”, ressalta.

No caso de adolescentes gays ou trans, esse tipo de postura dificulta ainda mais a abertura para a conversa e gera medo e insegurança. “Como vivemos em uma sociedade que não compreende e que desrespeita a população LGBT, frequentemente, as próprias crianças e adolescentes levam muito tempo para reconhecer e aceitar sua sexualidade. Como consequência, não é incomum que gays internalizem sentimentos de autodesprezo, autorejeição e de insegurança com relação à própria identidade sexual e de gênero”, observa Andréa Moreira Lima.

O ginecologista lembra também que a adolescência vai além das questões puramente hormonais e é uma construção cultural da modernidade ocidental para que a passagem da infância para a vida adulta se dê de forma saudável. “Ser adolescente não é fácil: o ‘ser adulto’ ainda não existe e ‘ser criança’ ainda não morreu”, pondera. Para ele, é preciso educar o jovem para o amor.

"Minha visão de mundo mudou quando comecei a enxergar os meus próprios preconceitos" - Jacson Dias, aluno do curso de cinema e audiovisual do Centro Universitário UNA e coordenador executivo do projeto de extensão 'Una-se contra a LGBTfobia' (foto: Arquivo Pessoal )

A história do estudante Jacson Dias, de 27, é um exemplo de como, apesar de a aceitação da própria homossexualidade ser processo lento e solitário, é possível encontrar apoio e respeito dentro da família. “Quando fiz 16, minha mãe me perguntou se eu era gay. Neguei, e essa cultura da negação é natural. Nesse dia, fizemos um pacto. Ela me disse que me aceitaria do jeito que eu fosse, independentemente da minha orientação sexual. O medo é natural na adolescência, não é fácil se sentir diferente, mas a partir dessa conversa, ficou tudo mais simples para mim. Desde então, minha mãe sempre soube diferenciar meus amigos dos meus namorados sem nem precisar falar. Mas não é assim para todo mundo. Tenho um amigo que se suicidou porque a mãe disse que preferia ele morto a ter um filho gay. Foi aos 18, ele era muito religioso e não deu conta de suportar essa rejeição”, relata.

Hoje, aluno do curso de cinema e audiovisual do Centro Universitário UNA e coordenador executivo do projeto de extensão 'Una-se contra a LGBTfobia', Jacson está à frente de uma iniciativa que oferece apoio e informação para lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e travestis. “Quando entrei na faculdade, mesmo sendo gay, tinha uma visão de mundo homofóbica e ao mesmo tempo racista. A gente carrega isso com a gente, porque crescemos em uma cultura machista, crescemos vendo racismo, crescemos ouvindo piadinhas com gays, negros, mulheres. Minha visão de mundo mudou quando comecei a enxergar os meus próprios preconceitos. É transformador. O Jacson que entrou na faculdade, em 2012, e o que está saindo, são pessoas muito distintas. Desde que me assumi homossexual lido melhor com as situações de preconceito que aparecem”, afirma.

ACEITAÇÃO

A psicóloga Andréa Moreira Lima reforça a importância de os adolescentes serem compreendidos e aceitos em relação à orientação homossexual. “Assumir essa orientação frente aos familiares é um sinal de amor e, ao mesmo tempo, uma espécie de pedido de apoio. Em uma sociedade como a nossa, que apresenta altos índices de preconceitos contra lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, assumir uma dessas formas de vivência e expressão da sexualidade exige muita coragem e sinaliza, por parte de quem a assume, o forte desejo de estabelecimento de um relacionamento aberto e honesto. Se assumir é tornar público o desejo de estar em uma relação onde se é amado e respeitado por aquilo que você é e não por aquilo que a família ou a sociedade gostariam que você fosse”, reforça.

A especialista reforça ainda que, ao contrário de uma visão ainda muito vigente em nossa sociedade, a homossexualidade não é uma doença e, portanto, não pode ser ‘curada’. “A homossexualidade, conforme a ciência define, é uma variação possível e legítima de manifestação do desejo afetivo-sexual”, explica. Segundo ela, em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade do seu Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais (DSM). Em 1985, o Conselho Federal de Medicina (CFM) passou a não mais considerar a homossexualidade como uma doença mental ou física e, desde 1999, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) normatizou que psicólogos não poderão propor tratamento ou cura para a homossexualidade. “Do ponto de vista clinico-social, a psicologia deve ajudar a pessoa a conviver em harmonia com sua orientação sexual, orientá-la a lidar com possíveis sofrimentos advindos do preconceito e auxiliá-la em seu empoderamento e no enfrentamento à discriminação social”, reforça.

Adolescentes transexuais

Estudo publicado no Jornal Pediatrics, da Associação Médica Americana, mostra que a supressão da puberdade, com o uso de bloqueadores hormonais, diminuiu a incidência de depressão, ansiedade e comportamentos de risco das pessoas trans


"Se o adolescente é criado em um ambiente em que o pai é dominador e a mãe submissa, esse filho vai interiorizar esse comportamento e pouco vai adiantar o discurso sobre igualdade de gênero" - Ginecologista com atuação em sexologia e membro da Associação de Ginecologistas e Obstetras de Minas Gerais (Sogimig) (foto: Divulgação / Sogimig);

Em janeiro deste ano, uma criança brasileira de 9 anos conseguiu na Justiça a retificação do nome civil e a mudança no campo de sexo, de masculino para feminino. O caso, que ocorreu no Mato Grosso e repercutiu em todo o país, trouxe à tona um tema que é preciso ser debatido e conhecido para que meninos e meninas que não se identificam com a sua identidade sexual, não sejam vítimas de preconceito, bullying e transfobia.

A quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria (APA) e usado como referência por profissionais de todo o mundo e também pela Organização Mundial da Saúde (OMS), não classifica como transtorno mental a inadequação da pessoa com o sexo com o qual nasceu. O termo utilizado é disforia de gênero, que serve para explicar a angústia daquele que não se identifica com o próprio corpo. Não se trata de doença e muito menos de escolha, mas, mesmo assim, é necessário acompanhamento multidisciplinar para evitar quadros de depressão. Nos Estados Unidos, a taxa de suicídio entre os transgêneros é 26 vezes maior que a da população geral. O termo transgênero engloba todas as identidades trans, como as pessoas transexuais e as travestis.

Gael Benitez é estudante de jornalismo e tem 21 anos. Desde a infância, ele sentia desconforto com o sexo com o qual nasceu. “Sempre me senti diferente, com a sensação de inadequação ao meu próprio corpo. Mas não tinha contato com pessoas fora do padrão heteronormativo. Não conhecia nenhuma pessoa trans, elas não estão na mídia e sequer estão visíveis na sociedade. Mas sempre me senti não pertencente a esse mundo. Carreguei essa questão por toda a infância e adolescência e esse incômodo (disforia) me trouxe inúmeros problemas psicológicos”, relata.

Foi apenas em 2014 que Gael começou a pensar sobre a vontade de readequar o sexo à identidade de gênero com a qual se identifica. Hoje, ele se considera homem trans heterossexual, mas conta que, antes de assumir sua identidade, estava projetado na sociedade como mulher lésbica. “A autoaceitação já é em si um processo difícil, doloroso e de autorreflexão. Fora isso, sempre tive a preocupação de como seria a aceitação social e demorei muito para tornar público o fato de ser um homem trans”, conta.

A psicóloga Andréa Moreira Lima diz que em grande parte dos contextos sociais, históricos e culturais, a adolescência vem carregada de muitas transformações biopsicossociais, que podem gerar conflitos internos e externos e dificuldades emocionais relacionadas à construção da identidade. “Por ser, geralmente, momento de muitas descobertas, que nem sempre estão conciliadas às expectativas das mães e dos pais. Criam-se, muito facilmente, diversos empecilhos para que a família fale sobre assuntos relativos à sexualidade. Tais empecilhos são preponderantes quando existe uma forte discordância no âmbito familiar – isto é, quando a vivência do adolescente é diferente daquela dos pais e das mães – ou, ainda, quando o adolescente não tem muita clareza sobre seus limites e possibilidades de existência”, observa.

Para ela, entre as várias mudanças que vêm com a adolescência, as sexuais estão entre as mais importantes, por perpassarem todas as fases do desenvolvimento humano e, com isso, caracterizarem aspectos fundamentais da nossa identidade. “O fato de as questões relativas à sexualidade e ao comportamento sexual serem assuntos reprimidos pela sociedade contribui, ainda mais, para a dificuldade de os adolescentes se posicionarem, principalmente quando suas posições são contrárias ao modelo imposto pela sociedade como o único legítimo”, afirma.

A professora do Centro Universitário UNA diz que, na maioria das vezes, os pais não sabem lidar com o fato de os filhos assumirem orientação sexual ou identidade de gênero que seja diferente das expectativas da família. “Para pais e mães, compreender e respeitar essas novas formas de vivência e expressão da sexualidade demanda a revisão de pré conceitos e estereótipos, bem como o reconhecimento da legitimidade das diferenças subjetivas e sociais”, pondera.

Para ela, ou se educa com liberdade e segurança, contestando os valores tradicionais, ou se reproduz os modelos autoritários e de repressão, nos quais grande parte desses pais e mães foram criados. “Para superar esse conflito, é preciso que os jovens sejam escutados em suas posições e dilemas e que a família compreenda e incentive o livre direito à sexualidade. Este é o grande desafio de qualquer processo de educação sexual e de gênero emancipatória”, afirma a especialista.

AMOR

Apesar do sofrimento em não reconhecer o corpo com o qual nasceu como o dele, Gael recebeu apoio familiar depois que assumiu para si a sua identidade de homem. “Minha mãe sempre foi uma pessoa tranquila, que valorizava o respeito ao outro e à diversidade. Moro com a minha irmã em Belo Horizonte e meus avós paternos vivem também na cidade. Mesmo sendo pessoas mais velhas, eles também me apoiam, inclusive, em relação às intervenções cirúrgicas e médicas que pretendo fazer. Meus avós não tinham informação sobre o assunto, mas não foram intolerantes. Eles se interessaram em se informar e foram se educando sobre a questão da diversidade. Toda reportagem que minha avó lê sobre o tema, ela quer entender mais sobre mim. Motivados pelo amor, eles me aceitaram”, conta.

Gael Benitez observa que sua história não serve como base e é uma rara exceção. “Sempre gostei de vestir roupas que seguem o padrão masculino e minha mãe sempre me permitiu, ela me deu liberdade de ser o que quisesse”, conta. O estudante universitário nasceu em Viçosa e seus pais se separaram quando ele tinha 5 anos. Desde então, o contato com a figura paterna não é de muita proximidade. 

Foi em 2015 que Gael decidiu tornar pública a sua história como pessoa trans. “E aí, quando me chamavam pelo pronome feminino ou pelo meu nome de registro era muito sofrido, porque desejava que tudo se adequasse à minha mente, em como me enxergava, em como sou de fato”, diz. Há seis meses, ele iniciou a hormonioterapia, para readequar seu corpo à identidade masculina. “Hoje, me vejo no espelho da forma que realmente sou, minha mente está de acordo com o meu corpo, minha imagem é masculina e as pessoas me enxergam assim. Para minha vida, é um marco muito grande. No início da minha transição, ainda era confundido com mulher, parei de sair de casa para não sofrer”, diz.

O jovem ainda não passou por nenhuma cirurgia, mas planeja, para o segundo semestre, a retirada dos seios e a cirurgia de masculinização do tórax. “Ainda sinto essa disforia. O tratamento hormonal não é algo milagroso, meu corpo nunca vai ser igual ao de um homem cisgênero (pessoa que se identifica com o sexo que nasceu). Essa disforia vai continuar para o resto da minha vida, mas, pela primeira vez, estou projetado na sociedade da forma que realmente sou, e as pessoas me tratarem como homem é um alívio enorme. Estou vivendo agora a melhor fase da minha vida”, conta.

O estudante de jornalismo já solicitou a mudança do nome civil, mas é um processo lento. “Qualquer lugar que tenha que apresentar meus documentos, seja numa consulta médica ou num banco, passo constrangimento. As pessoas questionam, querem saber, têm curiosidades ruins e muito pessoais. São situações de muita humilhação”, desabafa.

Para ele, informação e educação são fundamentais contra o preconceito. Além disso, o apoio familiar é imprescindível. “Se você tem um filho ou um parente que é trans, saiba que não é escolha. Estar em um ambiente familiar positivo terá um reflexo enorme no modo como essa pessoa vai se projetar no mundo. A família é o primeiro lugar que a pessoa trans vai se expor e ela precisa ser acolhida”, reforça.
"Infelizmente, a maioria das pessoas trans tomam hormônios por conta própria e não têm acesso aos serviços de saúde especializados. Vemos que tem aumentado a aceitação e o apoio em razão da informação que está sendo mais difundida, mas os transgêneros ainda sofrem muito com o preconceito e a falta de apoio familiar e dos serviços de saúde" - Karine Ferreira dos Santos, ginecologista de adolescentes do Instituto Nascer e do Núcleo de Saúde do Adolescente da UFMG (foto: Arquivo Pessoal ).

Readequação de sexo

Karine Ferreira dos Santos, ginecologista de adolescentes do Instituto Nascer, do Núcleo de Saúde do Adolescente da UFMG e membro da Sogimig, afirma que, se a família perceber que o filho ou filha tem um comportamento persistente que é do gênero oposto, o primeiro passo é acolher essa criança ou adolescente e procurar ajuda de um profissional de saúde mental. A especialista cita um estudo publicado no Jornal Pediatrics, da Associação Médica Americana (Jama), que acompanhou 55 transexuais, 22 mulheres trans e 33 homens trans, que mostrou que a supressão da puberdade com o uso de bloqueadores hormonais diminuiu a incidência de depressão, ansiedade, comportamentos de risco, além de melhorar a qualidade de vida, a satisfação e o nível de felicidade. Além disso, os jovens – que foram avaliados três vezes: aos 13 anos, aos 16 e aos 20 – tiveram ganhos objetivos no ambiente escolar e profissional. 
Clique para acessar a íntegra do estudo.

Por tudo isso, a readequação de sexo é um passo fundamental para quem é diagnosticado com disforia de gênero. Segundo a ginecologista, a supressão da puberdade com o uso de bloqueadores hormonais é indicada para que a criança não desenvolva os caracteres sexuais secundários. “O profissional mede o grau de desenvolvimento da puberdade e os bloqueadores são recomendados a partir do estágio 2 de Tanner. No caso das meninas, é quando surge o brotinho mamário”, detalha. Antes de iniciar a medicação, crianças e adolescentes devem estar sendo acompanhados por um profissional de saúde mental. “Infelizmente, a maioria das pessoas trans tomam hormônios por conta própria e não têm acesso aos serviços de saúde especializados. Vemos que tem aumentado a aceitação e o apoio em razão da informação que está sendo mais difundida, mas os transgêneros ainda sofrem muito com o preconceito e a falta de apoio familiar e dos serviços de saúde”, avalia.

A partir dos 16 anos, o recomendado é iniciar a terapia hormonal, para que o corpo fique adequado à identidade de gênero com a qual a pessoa trans se identifica. O acompanhamento com endocrinologista, ginecologista, urologista e profissional de saúde mental é por toda a vida. “Um homem trans, por exemplo, terá que fazer acompanhamento do câncer de mama, porque, apesar da cirurgia de retirada das mamas, mantém o risco aumentado de desenvolver o tumor”, explica.

No Brasil, a cirurgia definitiva de readequação de sexo é permitida a partir dos 21, no SUS, e a idade máxima para se submeter a ela é de 75. Além disso, é necessário que a pessoa tenha vivido de acordo com a identidade com a qual se identifica por dois anos. “Nem todo mundo opta por fazer a cirurgia de readequação de sexo. A construção da neovagina ou do falo, que, no Brasil, é feita em caráter experimental, pelo fato de o resultado ficar aquém do desejado, é um processo irreversível”, reforça a médica.

Antes disso, é comum que os homens trans se submetam à histerectomia, cirurgia para remover o útero, à ooforectomia, para retirada dos ovários, à mastectomia e à cirurgia plástica para afinar o rosto. Em caso de desejo de ter um filho biológico, a recomendação é o congelamento de óvulos antes das cirurgias.

Karine Ferreira dos Santos aponta ainda que a transfobia precisa ser superada pelos próprios profissionais de saúde que ainda não estão capacitados para atender essas pessoas. “Enquanto o conhecimento não chega a todos, ainda são necessários profissionais especializados e que entendem melhor essa realidade”, afirma. No último dia 14, a médica falou sobre o assunto na 9ª edição do Congresso Mineiro de Ginecologia e Obstetrícia, promovido pela Sogimig, em BH. O tema da palestra foi ‘O adolescente que quer mudar de sexo’.

"Queremos uma sala de aula em que caibam todos e acreditamos que a mudança vem pela educação" - Roberto Alves Reis, coordenador do projeto 'Una-se contra a LGBTfobia' e professor do Instituto de Comunicação e Artes da Una (foto: Arquivo Pessoal )

Una-se contra a LGBTfobia


Há cinco anos, Belo Horizonte conta com um projeto que vem acolhendo jovens universitários em questões que envolvem orientação sexual e identidade de gênero. O 'Una-se contra a LGBTfobia’ aprovou a adoção do nome social, no caso dos estudantes trans, em todos os documentos internos de todos os câmpus do Centro Universitário UNA. As pessoas transexuais e travestis também podem utilizar o banheiro de acordo com o gênero com o qual se identificam. Além disso, de acordo com o coordenador do projeto e professor do Instituto de Comunicação e Artes da Una Roberto Alves Reis, uma parceria com o Escritório do Serviço de Assistência Jurídica da universidade, o Esajuna, vinculado ao curso de direito, tem possibilitado que pessoas trans de toda a comunidade, e não apenas os estudantes, peçam a retificação do nome civil na Justiça. “O ponto forte desse projeto de extensão é que a gente oferece palestras, mesas-redondas e formação não apenas para os alunos, mas para professores e funcionários – o que fortalece a cultura do respeito à diversidade. Queremos uma sala de aula em que caibam todos e acreditamos que a mudança vem pela educação”, resume o coordenador do projeto.

Fonte: http://www.uai.com.br/app/noticia/saude/2016/05/22/noticias-saude,190154/nao-fuja-do-assunto-sexualidade-e-genero-devem-fazer-parte-do-dialogo.shtml (http://www.uai.com.br)

A Mulher Habitada, um recorte feminino da resistência latino-americana – Por Mariana Serafini

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Por mais rica e diversa que seja, a literatura latino-americana é basicamente dominada por homens. São poucas as autoras a circularem neste cenário. Em A Mulher Habitada, Gioconda Belli rompe padrões e traz uma obra complexa e sensível. É um olhar feminino e feminista sobre a resistência e o papel das mulheres na construção deste continente, cuja sociedade é resultado de invasões, assaltos e estupros.
Com seu livro de estreia, A Mulher Habitada, Gioconda Belli deixou claro a que vinha. À época do lançamento, no final dos anos 80, a obra venceu um dos mais importantes prêmios da literatura latino-americana, o Casa das Américas. Sempre com o viés feminino, a escritora se destacou mais tarde com uma infinidade de outros títulos, entre eles, O País das Mulheres (2010), O Infinito na Palma da Mão(2008) e sua autobiografia O País Sob Minha Pele, Memórias de Amor e Guerra(2001).
Como muitas latino-americanas, Gioconda precisou integrar a luta armada para defender a soberania de seu país, a justiça e própria vida. A escritora foi membro da Frente Sandinista de Libertação Nacional que em 1979 derrubou a ditadura de Anastasio Somoza e ocupou o poder na Nicarágua por duas décadas consecutivas.
A Mulher Habitada é, de certa forma, um livro de memórias. Memórias da ancestralidade latino-americana, o continente que não teve outra opção senão a resistência.
A narrativa em terceira pessoa é feita pela índia Itzá, que no período da invasão espanhola, diferente de outras mulheres de sua tribo, lutou junto aos homens contra os espanhóis. O diálogo entre ela e a mãe sobre a decisão de enfrentar a guerra é doce e triste, reflete, de certa forma, o momento em que muitas de nós, mulheres latino-americanas, decidimos partir em busca de emancipação e liberdade. A mãe argumenta que a força da mulher está “dentro de casa”, mas Itzá, irredutível, pede apenas para ser apoiada em sua escolha.
Ancestralidade é a principal característica da obra que se passa nos anos 70 com “memórias” da América pré-hispânica. As narrativas se mesclam e Itzá – “reencarnada” em uma árvore – ao mesmo tempo que narra a vida de Lavínia, a protagonista, “lembra” das lutas que travou pela independência dela própria e do continente.
Como a índia, a protagonista rompe os padrões de sua época. Se recusa ser apenas uma “boa esposa” e decide estudar na Europa para voltar e exercer a profissão em Fáguas, a cidade imaginária de Gioconda. Para isso, Lavínia corta a relação afetiva com os pais, enfrenta o machismo do mercado de trabalho e conquista a independência financeira. Por vezes, a solidão parece esmagar os outros sentimentos, mas é o preço que se paga pela liberdade de fazer as próprias escolhas.
O olhar feminino de Gioconda conduz a história com mulheres fortes. Os homens não são secundários, mas são vistos também pelas lentes femininas de Itzá e Lavínia. Assim como na Nicarágua, em Fáguas existe uma ditadura sanguinária e para mudar esta realidade a protagonista integra o Movimento de Libertação Nacional. Rica e mimada, precisa abrir mão do conforto e romper uma vez mais com os padrões impostos para lutar por outro mundo.
Gioconda consegue, como poucos, dar suavidade e leveza a uma história dura de opressão, perseguições, assassinatos, estupros e invasões – em dois períodos históricos distintos. As visões de Itzá e Lavínia se mesclam quando a protagonista não sabe de onde saem seus sonhos e pensamentos sobre “indígenas” e “arco e flecha”. São as memórias da América destruída a gritar por resistência num período de neocolonialismo.
Lavínia, Itzá e Fáguas são como uma coisa só. Uma conexão feminina cheia de força, intensidade e beleza. “Fáguas alterava-lhe os poros, a vontade de viver. Fáguas era a sensualidade. Corpo aberto, largo, sinuoso, peitos desordenados de mulher feitos de terra, esparramados sobre a paisagem. Ameaçadores. Lindos”.
De forma muito sutil, os elementos “femininos” permeiam toda a história, é a forma como as mulheres percebem o mundo. Os olhares de cumplicidade, a sensação de dançar uma música que se gosta muito, o desafio de adentrar o “universo masculino”, um chá com as amigas, a cor do esmalte, a textura do couro de uma bolsa… Detalhes que conferem leveza a uma narrativa que poderia ser crua.
Trata-se de um universo onde as mulheres tomam decisões, escolhem seu próprio caminho e, por mais confortável que pareça, não ficam à margem, à espera do homem que volta da caça, ou do dia exaustivo de trabalho, para receber colo e afago. Ao “deixar o lar”, elas partem para a luta ombro a ombro com seus companheiros, a questão é que nem todos estão preparados para ter mulheres fortes e independentes ao lado, por mais progressistas que sejam.
Este debate, levantado pela autora nos anos 80, permanece atual. Ser mulher, feminista e feminina, tem um preço. Integrar a luta política ao lado dos homens é um desafio. Ainda soa confortável que sejamos as que aguardam caladas as decisões serem tomadas.
O preço de se fazer as próprias escolhas é alto, e só é possível pagá-lo porque outras mulheres fortes já o fizeram ao lutar por um mundo mais justo. Com A Mulher Habitada, Gioconda nos mostra que a vida vale mais quando nos entregamos completamente às nossas convicções, afinal, “ninguém que ama morre jamais”.

SOCIEDADE:Sistema Carcerário - LGBTs privados de liberdade: um olhar sobre o cárcere


As grades metálicas aprisionam corpos e confinam sobretudo o espaço existencial dos sujeitos
“Se aqui fora existe preconceito, lá dentro é a treva de preconceito. Vi meninas se prostituírem por causa de um sabonete, para escovar os dentes. A saúde é totalmente precária, se você está com alguma coisa, vai morrer lá dentro”, relatou a trans Verônica Bolina durante o debate “Sistema Penitenciários e a População LGBT”, realizado em São Paulo no fim de junho.
Verônica passou dois anos na prisão após uma condenação por tentativa de homicídio e agressão em 2015. Quando foi detida, sofreu humilhação e foi torturada por policiais no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros, em São Paulo. Foi quando se tornou conhecida, após fotos e vídeos da agressão viralizarem nas redes sociais.
Seu relato deixa vislumbrar um pouco da realidade dos cerca de 450 travestis e transexuais atualmente cumprindo pena no estado de São Paulo.
Verônica Bolina durante o debate 'Sistema Penitenciários e a População LGBT'(Foto: Beatriz Drague Ramos)
O Brasil conta hoje com mais de 607 mil pessoas encarceradas, de acordo com os últimos dados do Ministério da Justiça, de 2014. Atualmente, a taxa de superlotação do sistema penitenciário ostenta um índice epidêmico de 166%, segundo dados do último Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias, de 2014.
Das 1.423 unidades prisionais, apenas 100 (15%) possuem alas destinadas ao público LGBT. A escassez de dados estatísticos sobre esta parcela da população prisional são um indício da invisibilidade sofrida por eles dentro e fora das cadeias.
Além dos problemas intrínsecos do sistema prisional brasileiro, entre os desafios enfrentados pelos LGBTs encarcerados estão a ausência de acompanhamento médico e psicológico, a falta de recursos para cirurgias de redesignação sexual e a existência de poucas alas especiais. Além disso, quase não há acesso aos tratamentos com hormônios para trans e o desrespeito à utilização do nome social é constante.
“Fui até o inferno e voltei”, resume o homem trans Leo Moreira de Sá, que passou por quatro penitenciárias em São Paulo ao longo de cinco anos, cumprindo pena por tráfico de drogas. Em uma das diversas vezes em que foi agredido, ouviu de um policial: “Você não quer ser homem? Então vai apanhar que nem homem”.
Em seu caso, a formação em Ciências Sociais pela USP, abriu a possibilidade de lecionar na Penitenciária Feminina de Santana entre 2007 e 2009, quando ainda encontrava-se encarcerado. Além de receber um salário mínimo por mês, a cada três dias trabalhados, um era descontado do total de sua pena. “Eu tinha o respeito da comunidade como educador, já que eu não era do crime”, admite com orgulho.
A violência policial física e mental, o escárnio e o desprezo da maioria dos agentes são uma violência indescritível', ressalta Leo Moreira de Sá (Foto: Beatriz Drague Ramos)
Ser ou não “do crime” é um dos termos utilizados no sistema carcerário e explicado na pesquisa "O barraco das monas na cadeia dos coisas: notas etnográficas sobre a diversidade sexual e de gênero no sistema penitenciário", do mestre em Antropologia Social pela USP Marcio Zamboni.
Na pesquisa, o antropólogo analisa a relação entre as dinâmicas de organização do espaço prisional e as formas de identificação e diferenciação entre presos por conta do gênero e sexualidade. Para isso, visitou diversos centros de detenção provisórios durante um ano, entre 2015 e 2016, como agente da ONG Pastoral Carcerária.
Ele acredita que é de extrema importância lançar um olhar sobre esta população, historicamente segregada e despida de seus direitos fundamentais no sistema penitenciário. “O crime é machista”, diz.  
Convivendo com o PCC
Segundo a pesquisa, a população LGBT “não entra, mas fecha com o PCC”. Apesar de não integrarem o grupo, muitos conseguem negociar sua estadia nas casas de detenção, já que estão fora das disputas de poder entre facções rivais.
Segundo o pesquisador, a facção criminosa PCC impôs o fim da discriminação contra homossexuais nas cadeias. Ainda assim, paradoxalmente, é preciso se portar “como homem”. Em um dos relatos presentes no estudo, a trans Samanta fala sobre as relações entre a população carcerária LGBT e a facção.
“Eu já fiquei em cadeia do PCC, mas para gente que é homossexual é ruim demais, é muito sofrimento. A gente fecha com eles, mas tem que usar cabelo curto, não pode usar roupa feminina e nem ter relação”, conta.
Leo também ressalta as restrições nos códigos de conduta. “Eu assumi aos poucos um estereótipo de homem hétero, criminoso e machista para sobreviver dentro de um sistema, mesmo não admitindo-o. As relações de poder estão em todas as convivências do dia-dia”.
“É um ambiente que não pode ter o feminino”, conta Zamboni, explicando que os presos justificam o enquadramento dos LGBTs como decorrente do ciúmes das companheiras. “Eles dizem: se as nossas mulheres encontram as trans, gays e travestis dentro das celas ficam com ciúmes e isso dá problema para a gente. Se elas virem a prostituição, não vão querer voltar”.
A violência policial física e mental, o escárnio e o desprezo da maioria dos agentes são uma violência indescritível', ressalta Leo Moreira de Sá (Foto: Beatriz Drague Ramos)
Dentro deste cenário surgem as “cadeias dos coisas”, objeto de pesquisa de Zamboni, penitenciárias destinadas para a população segregada pelo PCC, como idosos, ex-policiais, LGBTs, dependentes químicos e pequenos traficantes. Nesses locais, menos de 10% das penitenciárias paulistas, a lógica é outra, pois são de fato comandadas pelos funcionários, segundo o antropólogo.
Resistência e Perspectivas
Os jornalistas Natália Martino e Leo Drummond ofereceram oficinas de fotografia e de texto às pessoas presas (Foto: A Estrela)
Em abril de 2014, entrou em vigor a Resolução Conjunta 1, editada pelo Conselho Nacional de Combate à Discriminação e o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, prevendo a possibilidade de  transferência de “pessoas que passaram por procedimento cirúrgico de transgenitalização” para “Unidades Prisionais do sexo correspondente”. 
A legislação visa institucionalizar a “atenção às travestis e transexuais no âmbito do sistema penitenciário brasileiro”. Dentre outras medidas determinadas estão a visita íntima, a atenção integral à saúde e tratamento hormonal e o uso do nome social. Consta também sobre a necessidade de cursos de educação e qualificação profissional.

Dentre os principais objetivos da adoção das celas especiais para LGBTs está garantir a segurança ou, ao menos, minimizar a chance de violência para essa população. A medida, porém, não é consenso entre os especialistas.
As alas especiais funcionam em Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraíba e Mato Grosso. Em São Paulo, onde vive 40% da população prisional brasileira, não há política oficial de separação dos LGBTs dos demais. 
“Não existe a tentativa de criar a aparência de uma política penitenciária pró-direitos humanos, em razão de qualquer concessão a essas demandas serem vistas como um amolecimento do rigor da justiça”, critica o antropólogo Marcio Zamboni, que é crítico à segregação. “Cria-se um efeito simbólico negativo com a falsa sensação da existência de um privilégio para as pessoas LGBT”, diz.

Andrey Lemos, presidente da União Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (UNALGBT), vê o sistema penitenciário brasileiro, de forma geral, como um antro de violações de direitos. “Penso que as travestis e mulheres trans, ao cometerem algum crime, devem ser acolhidas nas alas femininas, de acordo com a sua identidade de gênero”, afirma, ressaltando que, ao mesmo tempo, uma equipe multidisciplinar deveria avaliar casos específicos de encaminhamento para celas especiais.
Em Minas Gerais, a ala LGBT do presídio de Vespasiano participou de uma iniciativa jornalística que objetiva dar voz a essa população. Trata-se da revista A Estrela, editada pelos jornalistas Natália Martino e Leo Drummond, da agência Nitro.
No texto 'Mutação' da revista A Estrela, as mudanças de aparência no processo de revelação homossexual dentro das alas LGBT (Foto: A Estrela)
Entre os relatos em primeira pessoa, está o de Luis Gustavo dos Santos sobre sua vivência em uma prisão masculina em 2000. Lá, compartilhava a cela com outros dois homossexuais, onde eram submetidos a abusos diários.
“Percebi que depois do jantar, um deles entrou no banheiro e os presos fizeram uma fila. Um após o outro, entravam para se saciar. Os homossexuais tinham que servir a todos que quisessem, sem camisinha. Também eram os únicos que não tinham copos e precisavam beber água em uma garrafa descartável cortada, porque os outros presos tinham nojo deles”, relata. 
Ele evidencia a importância da ala especial em sua vida: “Após anos de carnificina, em 2006, essa cadeia foi fechada. Mas até isso acontecer, tive que criar um personagem para sobreviver. Por isso, criar alas homossexuais em presídios é tão importante. É pela sobrevivência”.
O encarceramento da população LGBT nos Estados Unidos nos permite traçar paralelos com o Brasil. Segundo o relatório "Coming Out Concrete Closets", de 2015, da organização Black & Pink, “as violências física e sexual ocorrem em maior proporção dentro da população LGBT”.
Dos 1200 presos ouvidos, todos relataram experiências de violência sexual, realizadas por outros encarcerados e funcionários. Ao menos 76% experimentaram situações de risco de violência dentro de suas próprias celas, devido à superlotação. Os EUA mantém a maior população carcerária do mundo, com mais de 2 milhões de presos.
Fonte: Carta Capital