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sexta-feira, 9 de junho de 2017

RETROSPECTIVA DO MOVIMENTO ESTUDANTIL HÁ EXATAMENTE 40 ANOS!!! CONFIRAM!!!

Há exatos 40 anos, estudantes tentavam reconstruir a UNE em Belo Horizonte

por Felipe Canêdo, especial para o site da UNE / Edição: Rafael Minoro e Artênius Daniel.
Dando sequência ao especial sobre a relação do movimento estudantil com a cidade de Belo Horizonte, o site da UNE apresenta hoje a reportagem sobre o III Encontro Nacional dos Estudantes, que sofreu repressão e foi impedido de acontecer na capital mineira; o encontro tinha o objetivo de iniciar um movimento pela reconstrução da entidade, o que só foi acontecer dois anos depois, em 1979, durante Congresso realizado em Salvador, na Bahia

A madrugada do dia quatro de junho de 1977, sábado, foi agitada no interior do Diretório Acadêmico Alfredo Balena, no Campus de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais, na Região Central de Belo Horizonte. Cerca de 400 jovens – mineiros em sua maioria, mas havia também paulistas, cariocas, baianos e gaúchos – se reuniram ali desde o início da tarde de sexta-feira para garantir a realização do III Encontro Nacional de Estudantes no dia seguinte.

Faculdade de Medicina/UFMG, durante tentativa de realização do III ENE. Local: Belo Horizonte. Data: junho de 1977. Acervo Projeto República/UFMG.

A vigília foi enchendo à medida que se ouviam notícias de pessoas presas em toda a cidade e de ônibus impedidos de chegar à capital mineira. “Prenderam grupos de vôlei, de basquete, jovens que desciam do ônibus ali perto da Medicina. Fizeram um trabalho muito grande nas estradas. Mandaram voltar ônibus que vinham do Sul, da Bahia, de São Paulo, do Rio. Transformaram a cidade de BH em uma praça de guerra”, afirma Samira Zaidan, então estudante de matemática e liderança estudantil.
“À época nós avaliávamos que tínhamos força para fazer um encontro com 800, 900 delegados de todo o país, para enfrentar a repressão e recriar a União Nacional dos Estudantes”, recorda Zaidan.
O Ministério da Educação e Cultura proibiu o evento dias antes de sua realização. Na véspera, o governador Aureliano Chaves determinou o bloqueio de todas as universidades de BH.
Durante toda a noite de sexta, com a escalada de tensão, os estudantes se revezavam em um microfone aberto em frente ao DA, que amplificava discursos inflamados, poemas e canções. Em dado momento, a Polícia Militar e o Exército cercaram o campus com arame de galinheiro, homens e viaturas.
“Nós viramos a noite, acabou tudo que tinha de comida, ficamos com fome, à míngua. Não tínhamos planejado ficar lá direto”, lembra Américo Antunes, então estudante de jornalismo, autor do romance “Nós, que amamos a revolução”, sobre o Movimento Estudantil da década de 1970.
“Policiais com cães, com metralhadoras, todo tipo de arma. Ficamos com elas apontadas para nós. O barulho lá fora era de muita bomba estourando, isso nos deixava tensos, e como era ditadura, ninguém sabia se de fato eles iam atirar ou não”, rememora o deputado estadual de Minas Gerais Rogério Correia (PT), à época um estudante recém-ingressado na universidade.
Sobre essas horas de tensão, Thomaz da Mata Machado, então estudante de medicina e liderança estudantil afirma: “O que eu me lembro mais foi da assembleia, quando a polícia cercou, para decidir se a gente topava ser preso ou se íamos enfrentar a polícia. Eu e Jânio Bragança (então presidente do Diretório Central dos Estudantes) defendemos que devíamos ser presos, porque senão seria um massacre.”
A rendição, no entanto, não era ponto pacífico, e militantes de algumas correntes do movimento estudantil suscitavam o enfrentamento. “Por decisão da maioria, optamos por sair de lá de mãos na cabeça”, lembra Correia.

PAIS E FILHOS

Faixa empunhada por estudantes no pátio da Faculdade de Medicina/UFMG durante a tentativa de realização do III ENE. Local: Belo Horizonte.  Data: junho de 1977. Coleção Eduardo Osório Cisalpino/Acervo Projeto República/UFMG.

Do lado de fora do Campus, Samira Zaidan coordenou uma comissão emergencial que negociou com o reitor Eduardo Osório Cisalpino e acionou por telefone uma rede pais e amigos que providenciou cobertores e comida para quem estava lá dentro. Cisalpino não permitiu que os militares adentrassem o campus e violassem a autonomia universitária.
“O DA tinha um telefone, foi a nossa única comunicação com o lado de fora”, conta Américo Antunes.
“No meio da assembleia, de madrugada, alguém propôs pra ligar para as famílias pedindo comida, água e apoio. Fizemos uma fila, o reitor ameaçou cortar o telefone mas não o fez. O pessoal foi se aglomerando na rua, do lado de fora, e isso foi criando um clima”, narra Mata Machado.
Zaidan afirma que a presença dos pais foi muito importante. “Teve mãe que se recusou a ir, disse que o filho não deveria estar ali, mas 99 por cento dos pais entenderam que era uma questão fundamental sua presença lá”. Do lado de fora, cerca de 80 pessoas se aglomeraram durante a noite. “O reitor foi pra lá. Queriam registrar o nome das pessoas, na verdade eles queriam entrar, prender, matar. A PM queria entrar atirando”.

OLHOS NO OLHOS

Estudantes deixam o Campus da Saúde, após a tentativa de realização do III ENE, acompanhados do Reitor da UFMG, Eduardo Osório Cisalpino, do Secretário de Educação, José Fernandes Filho, e do Diretor do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG, Marcello de Vasconcellos Coelho. Local: Belo Horizonte. Data: junho de 1977. Acervo Projeto República/UFMG.

Por volta das 5h da manhã, a polícia resolveu invadir o local, descumprindo a deliberação de Cizalpino.
“A PM entrou e entrou correndo, um monte de gente armada, e pararam na escada do DA. Aí nós fomos lá e aceitamos ser presos. O pessoal começou a sair abraçado, de 4 em 4, por entre um corredor polonês de policiais”, narra Mata Machado.
“Tinham parado mais ou menos uns 10 ônibus na Avenida Alfredo Balena, e foram saindo com os grupos e os colocando lá dentro”, afirma Zaidan.
Os cerca de 400 jovens foram levados para o Parque de Exposições da Gameleira, e divididos entre as baias que eram usadas para o confinamento de bovinos e equinos. Começaram a cantar canções brasileiras de protesto, uma delas era Olhos nos Olhos, de Chico Buarque.
“Nos colocaram sentados no chão. De vez em quando um levantava, fazia um discurso, a polícia vinha e pegava, levava lá pra dentro. Tinha um pessoal que mandava ficar sentado, ´não discursa, não discursa´, mas aí vinha um e não aguentava”, relembra Mata Machado.
Olhos nos olhos, quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
(Olhos nos Olhos – Chico Buarque)
“Houve tensão lá também. Cada um ia sendo fichado individualmente, cercado por três policiais do Exército, nos levavam em caminhos escuros, e só depois disso é que nos soltaram”, recorda o deputado Rogério Correia. “Criaram um critério de soltar quem não era dirigente de entidade”, explica Mata Machado.
Depois disso, 56 estudantes ainda permaneceram presos, seriam soltos ainda naquele dia, mas foram indiciados pela Lei de Segurança Nacional.

A PANELA DE PRESSÃO

Apesar das prisões e da violência, o movimento estudantil saiu motivado do episódio, e em setembro foi realizado um encontro nacional em São Paulo que criou comissões pró-UNE nas seguintes universidades: UFMG, UFBA, USP, UFRS, UFRJ. Em 1979, o processo resultaria na refundação da União Nacional dos Estudantes, em Salvador.
“Destampou-se a panela de pressão. A analogia é boa”, compara Américo, citando o documentário “O Apito da Panela de Pressão”, produzido pelos DCEs Livres da USP e da PUC-SP em 1977, em filme 16mm. A obra aborda o ascenso do movimento estudantil naquele momento. Para ele, a agitação dos estudantes a partir dali impulsionou movimentos sociais contrários à ditadura e a favor das liberdades democráticas.
Assista ao documentário “O Apito da Panela de Pressão“:
“O III ENE foi um evento fundamental, porque foi um encontro nacional que teve repercussão extraordinária. O movimento estudantil de então estava localizado nas cidades, fazia-se encontros específicos de cursos, mas não se articulava nacionalmente como na UNE. E com a repressão violentíssima, houve um apoio generalizado da sociedade, isso colou no coração das pessoas, causou comoção”, afirma Mata Machado.

Ato de repressão policial nas imediações da Faculdade de Medicina/UFMG durante o cerco ao III ENE. Local: Belo Horizonte.  Data: junho de 1977. Coleção Eduardo Osório Cisalpino/Acervo Projeto República/UFMG.

“A repressão foi descomunal, foi desnecessária, foi absurda. Foi um evento totalmente fora do padrão. E nós percebemos que a refundação da UNE era inaceitável para os militares”, avalia Zaidan.
“Até 1977 o medo geral era porque a polícia prendia, matava. Todo mundo tinha medo, então o III ENE foi um marco”, sustenta Américo. “Depois dele tem uma greve geral dos estudantes na UNB que dura mais de dois meses. Em seguida a criação do Movimento Feminino pela Aninstia, o Comitê Brasileiro pela Aninstia, e isso tudo vai culminar nas greves de 1978 contra o arrocho salarial no ABC Paulista”, afirma.

A RECONSTRUÇÃO DA UNE

Depois do Congresso de Ibiúna (SP), em 1968, onde cerca de mil estudantes foram presos, a União Nacional dos Estudantes passa por anos difíceis. Com o Ato Institucional número 5, em dezembro de 1968, o regime militar se torna mais agressivo e em 1969, o estudante carioca Jean Marc Von der Weid é eleito presidente da entidade através de seu conselho, derrotando o paulista José Dirceu por seis votos. Em 1971, o goiano Honestino Guimarães é eleito em um congresso clandestino realizado na Baixada Fluminense. Em 1973 ele é preso pelo Centro de Informações da Marinha (CENIMAR) e nunca mais é visto. A UNE só volta a ter um presidente em 1979, o baiano Ruy Cezar Costa Silva.
Em 1977, Belo Horizonte era um dos centros do movimento estudantil nacional, juntamente com São Paulo. Daí o motivo do III ENE ter sido planejado na capital mineira. “Nós éramos muito organizados na UFMG, na PUC também. Na UFMG era muito porque a reitoria não fechou o DCE e os DAs quando teve o AI5. Então nós tínhamos entidades estudantis, recursos financeiros, e um movimento de denuncias, era o movimento mais forte do Brasil, junto com a USP”, recorda Zaidan.
Após a reconstrução da UNE, em 1979, a entidade voltou a realizar seus congressos em clima de institucionalidade, escolher livremente os seus dirigentes e interferir de forma mais ativa na vida nacional. O movimento estudantil foi fundamental, durante o início da década de 1980, para o enfraquecimento do regime militar e a retomada da democracia.

ATUAL DIRETORIA VAI HOMENGEAR OS 40 ANOS DO III ENE

Os ex-estudantes que participaram do III ENE serão homenageados no 55º Congresso da UNE, em Belo Horizonte, com uma mesa de debates sobre a história da reconstrução da entidade, no dia 15 de junho, no campus Pampulha da UFMG. Além disso, será montada exposição no Congresso com fotos e documentos históricos que registraram a agitação política na capital mineira durante aquele período.
Fonte: UNE

“Da universidade nóiz não sai, da universidade ninguém nos tira”

Diretora de Mulheres da UNE, Bruna Rocha e Mariana Jorge, diretora de Comunicação do DCE da UFBA falam sobre cotas e resistência dentro da universidade
Desde que, a partir de políticas públicas criadas nos governos Lula e Dilma, nós, mulheres, LGBTs e juventude negra passamos a ocupar alguns espaços, percebemos que nossa presença incomoda. A universidade está no centro dessa reflexão. Qualquer cotista saberá falar do vazio, do sentimento de deslocamento total, da completa sensação de não-pertencimento que o primeiro dia de aula na universidade nos traz. Nossa experiência não foi diferente. Adentrar num ambiente elitista como a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia parecia um programa de auditório onde todas as provas são colocadas para nos eliminar. Desde a falta de informação e acolhimento que nos deixam perdidas entre os murais com as milhares de disciplinas, cujos nomes nos fogem ao repertório de nossas vidas, até às rodas de amigos advindos das grandes escolas particulares, cujo construtivismo de mil reais mensais nunca caberiam no bolso de nossos pais.
De incomodadas a incomodantes, noiz segue resistindo na Universidade. Temos muita clareza sobre qual projeto de educação está colocado pelo governo golpista e qual carne será cortada junto ao orçamento. Assistência estudantil é a bola da vez, pois sem política pública não conseguimos continuar estudando. O pacote de maldades de Temer, seus aliados e dos seus adversários que pretendem o derrubar através de eleições indiretas que emposse um capataz mais competente para aprovar as reformas reacionárias que tramitam no congresso, ataca diretamente a vida dos e das estudantes pobres, negros e negras, que mais necessitam das políticas de permanência. E o debate de permanência precisa ser qualificado, como tão bem debatemos no IV Encontro de Negros e Negras da UNE e aprofundamos no quinto encontro.
Passamos os últimos dois anos sendo tragadas e tragados pelas ofensivas aos direitos conquistados. Lutamos contra a redução da maioridade penal, contra o fim da pílula do dia seguinte, abraçamos a Dilma, organizamos grandes marchas em Brasília para resistir o golpe e denunciamos o seu caráter misógino, construímos a maior greve geral dos últimos anos para dizer que a aposentadoria fica e Temer sai, estamos vigilantes para barrar a reforma trabalhista. Mas, para além da resistência, também somos potência. Somos ação, proposição e temos um projeto de país para disputar com a sociedade brasileira. Temos um projeto de educação e afirmamos, através da UNE e de toda a rede de entidades do movimento estudantil e de estudantes auto-organizados em diversas expressões sociais, que temos política para apresentar.
Foi assim que conquistamos a destinação de 10% do PIB e 100% dos royalites do Pré-Sal para a educação. Foi assim que conquistamos a Lei de Cotas, o ProUni, o Reuni e tensionamos o estado brasileiro a abrir as portas do ensino superior para o povo, para o nosso povo. Metemos o pé na porta. O ingresso de trabalhadores e trabalhadoras na universidade é um acontecimento que ainda não pode ter seus impactos dimensionados com precisão no desenvolvimento do país, mas temos certeza que esta foi a política de reparação social mais consistente dos governos petistas. É importante avaliar os indicadores para compreender o impacto dessa política na vida da população brasileira. Com a Lei de Cotas, o número de estudantes oriundos das escolas públicas, subiu de 27% para 43% em cursos valorizados como Medicina, Arquitetura e Urbanismo, Direito, Comunicação, Odontologia e as Engenharias. Este é um dado de 2005, trabalhado no artigo Os Impactos das Cotas no Brasil, de Glaucia Pereira, o qual vale a pena folhear e está disponível para download na internet. Outra publicação fundamental para observar a experiência das cotas em diversos estados é o livro “O impacto das cotas nas universidades brasileiras”, organizado pelo professor Jocélio Teles dos Santos e publicado em 2013 Centro de Estudos Afro-Orientais – CEAO da UFBA.
Nossa presença não representa apenas uma mudança na composição social da universidade, mas também uma mudança qualitativa nos rumos da produção do conhecimento. É crescente o número de trabalhos de conclusão de curso, artigos científicos,  pesquisas e trabalhos de extensão na área dos direitos humanos e das pautas de maiorias subalternizadas, como a questão racial, de género, sexualidade. A interiorização do ensino superior é outro fator fundamental na alteração da concepção de desenvolvimento regional em diversos estados brasileiros, sobretudo do nordeste. A criação da UNILAB e da UNILA colocaram o Brasil em outro patamar de relações internacionais e deram aos e às estudantes uma oportunidade ímpar de reconfigurar sua identidade afro-latina, um sentimento de pertencimento e protagonismo na construção de um novo mundo academico.

Eles temem esse novo mundo. Eles temem tudo que escrevemos, eles temem tudo que pesquisamos, eles temem tudo que denunciamos das velhas estruturas que conservam poder na academia. Eles temem a nossa investigação de outros paradigmas epistemológicos e nossa vontade de ocupar os espaços de poder na universidade, por um modelo de gestão democrática e participativa.

Por isso querem congelar os investimentos em educação por 20 anos. Por isso querem exterminar essa geração contaminada de esperança, ousadia e coragem para lutar por direitos e não retroceder. A juventude brasileira tem uma grande tarefa pela frente: derrubar Michel Temer, barrar as reformas da previdência e das leis trabalhistas, e construir uma agenda de avanços sociais que protejam a dignidade e cidadania do povo brasileiro.

O 55º Congresso da UNE será um grandioso momento para que as experiências de resistência nas universidades de todo o país produzam uma plataforma contundente em defesa da educação e da democracia. Não há saída para o Brasil que não as Diretas Já, para que o povo possa eleger um ou uma representante que retome o programa de distribuição de renda, participação social e inclusão produtiva das camadas populares de nossa população.

Aos golpistas, deixamos um recado: noiz vai montar comitês de resistência em cada universidade desse país! Cada Centro Acadêmico, cada DCE, cada coletivo será um núcleo de enfrentamento, de pressão pelas eleições diretas e defesa irrestrita da democracia! Onde houver estudante, haverá luta! E da universidade nós não sai, da universidade ninguém nos tira.
*Bruna Rocha é diretora de Mulheres da UNE e Mariana Jorge é diretora de Comunicação do DCE da Universidade Federal da Bahia (UFBA).