Postagem em destaque

marxismo, sexualidade e gênero

Como é ressaltado na Apresentação abaixo, este dossiê é uma tentativa dos marxistas de enfrentar, com rigor e seriedade analítica, o de...

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Jovem ativista é vitima de racismo e tem o turbante arrancado por um grupo de homens em festa de formatura

Foto: Revista Fórum
Ela teve o turbante arrancado e jogado no chão por um homem enquanto outros presentes atiravam cerveja nela. Além disso, sofreu xingamentos, ameaças e foi a última a sair da festa com medo de novas agressões.
A representante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial e diretora da União Estadual dos Estudantes de Minas Gerais (UEE-MG), Dandara Tonantzin Castro, foi agredida física e verbalmente na noite deste sábado (23) por um grupo de homens durante festa de formatura do curso de Engenharia Civil da Universidade Federal de Uberlândia – UFU.
Ela teve o turbante arrancado e jogado no chão por um homem enquanto outros presentes atiravam cerveja nela. Além disso, sofreu xingamentos, ameaças e foi a última a sair da festa com medo de novas agressões.
Dandara escreveu o seguinte relato sobre o caso na sua conta do Facebook:

A NOSSA PRESENÇA INCOMODA.

Sobre o racismo em uma festa de formatura.
Nessa semana participei da formatura dos meus amigos da engenharia civil – UFU. Na noite de ontem, no baile, fui de TURBANTE. No início muitos olhares incomodados, mas os vários elogios me acalmavam. Quase no fim da festa, já do lado de fora um cara branco, puxou meu turbante forte. Disse para ele soltar e saí. Quando passei por ele novamente, sozinha, ele puxou pela segunda vez, fiquei tão brava que gritei para ele não tocar no meu turbante. Ele acenou para os amigos virem, quando juntaram em uma rodinha um deles puxou o turbante da minha cabeça e jogou no chão. Quando fui catar, incrédula do que estava acontecendo, jogaram cerveja em mim. Muita cerveja. Fiquei cega, sai desesperada para achar meus amigos. Sabia que se ficasse ali poderia até ter mais agressões físicas.
Meus amigos imediatamente chamaram a segurança (todos negros) que logo entenderam que se tratava de racismo e logo foram tira-los da festa. Um deles teve a cara de pau de falar ao segurança que não meu agrediu “só tirei aquele turbante da cabeça dela”. As namoradas (todas brancas) vieram pra cima de mim. Tentei explicar que era racismo, o cinismo prevaleceu e sem êxito sai de perto. Ficaram de cima dos seguranças pedindo para me tirar da festa também, como se a minha presença fosse um problema. Meus amigos ainda tentaram conversar mas o ódio cega. Quando fui no banheiro ainda tive que ouvir ameaças indiretas, sobre me bater e outras coisas terríveis que não consigo nem dizer aqui. Fomos os últimos a sair por medo de fazerem alguma coisa conosco do lado de fora.

Negros na formatura? Na limpeza, segurança ou servindo.

Me mantive forte muito tempo. Mas o racismo é cruel. Minha lágrimas estão molhando muito a tela do celular, só de pensar que estes e tantos outros passaram impunes. Tenho muito orgulho de ter formado um preto, pobre vindo do interior como o Filipe Almeida, seguimos com a certeza de que vamos resistir.

Reflexões Sobre Racismo e Saúde Mental


EMENTA:
Este curso se constrói no âmbito das ações afirmativas e assistência estudantil, visando dar respostas contundentes e profícuas às situações institucionais que envolvem principalmente práticas racistas e sexistas junto ao corpo discente. Desta forma, a ementa deste curso invoca temas conhecidos ressignificados num amplo e novo debate e enfoque. Discutiremos assim o impacto da história da escravidão no imaginário social e nos processos civilizatórios e indenitários. Abordaremos temas conceituais como raça/etnia, grupo étnico, etnicidade, racialismo, entre outros, além da representação social que negros e não negros da educação e socialização para compreender as diferenças. Daremos ênfase à produção sobre racismo e saúde mental, numa releitura de autores como Frantz Fanon e Alberti Memmi. O sofrimento ético-político: inclusão perversa e humilhação, raça/racismo no contexto das ciências e profissões voltadas ao atendimento à saúde mental. A organização da população negra, a intervenção à saúde mental e o aprendizado sobre o grupo “Linguagem e Memórias Emancipatórias”.
OBJETIVOS:
• Aprofundar o debate acerca da temática étnico-racial no contexto das ações afirmativas e assistência estudantil e demais políticas públicas;
• Refletir acerca do impacto do racismo na saúde mental;
• Promover integração entre estudantes e profissionais em torno da temática, bem como desenhar as estratégias para intervenção;
• Socializar o conhecimento acerca da metodologia do grupo “Linguagem e Memórias Emancipatórias”;
• Colaborar com a superação das situações que envolvem práticas racistas no contexto da Universidade;
• Estimular a organização dos estudantes em torno da proposta do grupo “Linguagem e Memórias Emancipatórias”;
METODOLOGIA/ ESTRATÉGIAS PEDAGÓGICAS:

O curso será desenvolvido semipresencialmente.
A proposta é trabalharmos na perspectiva da gestão do conhecimento, visando mudanças na cultura organizacional, no que tange à temática étnico-racial no desdobramento do racismo institucional, de estigmas e do impacto na saúde mental. Objetivamos, também, criar um espaço no qual discentes, técnicos e professores possam dialogar e explicitar valores e sentimentos instalados acerca do tema, ressignificá-los e propor ações institucionais para superação.
Ele será ministrado através do MOODLE/UNIFESP/PRAE, espaço virtual no qual acontecerão os fóruns de debate, bem como será cadastrado no SIATEX – Sistema de Registro de Acompanhamento de Atividades de Extensão para obtenção de certificação. As aulas presenciais acontecerão a partir de tutoria local, com e sem participação direta do professor.
As inscrições serão feitas tendo como referências os seis campi. Serão destinadas dez (10) vagas para cada campi, considerando a demanda interna (profissionais, alunos da pós-graduação) e parceiros técnicos de outras universidades públicas.
O conteúdo programático será dividido em 90 horas. 72 horas de atividades incluindo um seminário que será também aberto ao público externo. Também serão computadas 18 horas de atividades que deverão ser realizadas pelos estudantes de cada polo/campi. Esta atividade poderá ser uma campanha, debates, entre outras atividades envolvendo as temáticas discutidas durante o curso.
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:
1- O tempo longo: o impacto da história da escravidão no imaginário social;
2- Breve digressão sobre as identidades;
3- Socialização da população negra no século XX;
4- O sofrimento ético-político: inclusão perversa e humilhação;
5- Raça/racismo no contexto das ciências e profissões voltadas ao atendimento à saúde mental;
6- A organização da população negra na intervenção a saúde mental;
Aprendendo sobre o grupo “Linguagem e Memórias Emancipatórias”.

Carga horária: 72 horas / 18 horas de atividade de aplicação prática no local de trabalho, totalizando – 90 horas
Número de vagas: 90 e no mínimo 20
Vagas prioritariamente destinada aos profissionais dos NAEs/PRAE e demais profissionais da UNIFESP
Serão disponibilizadas vagas profissionais das Pró-Reitorias de Ações Afirmativas da UFBA e UFRB.

DIAS DA SEMANA: A partir do dia 10 de maio de 2017, em cada 4º feira (a partir das 14h), estará disponível uma nova aula na plataforma MOODLE.
Este curso requer uma dedicação de ao menos 6 horas semanais para o estudo dos conteúdos e a realização dos exercícios. Essas horas poderão ser distribuídas de acordo com a organização de cada polo/campi. Todavia, fixaremos as sextas-feiras para os encontros presenciais, no qual os profissionais, em conjunto com o acompanhamento de um tutor ou/não, deverão aprofundar os textos, assistir filmes conjuntamente e/ou trazer um convidado externo. Alguns polos já têm definido a tutoria externa. Cada grupo deverá eleger um coordenador/tutor local. Este tutor será cadastrado e receberá a diplomação por essa atividade.
Mais informações no documento abaixo:

ARQUIVO - UNEGRO: A herança do Partido dos Panteras Negras 50 anos depois marca corações e mentes no mundo

O punho cerrado era o gesto característico de protesto dos Panteras Negras
Neste mês faz 50 anos que surgiu o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa, nos Estados Unidos, para reunir e representar os negros e negras que desejavam o fim das diferenças. “Organizou-se fortemente e cresceu rápido por colocar a luta racial no contexto da luta de classes”, diz Mônica Custódio, secretária de Igualdade Racial da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).
De acordo com o historiador Augusto Buonicore, o grupo “desde o início, adotou o marxismo como referência teórica da sua ação e logo se transformou no inimigo público número um do FBI (a polícia federal norte-americana)”.
Isso porque os Panteras Negras acreditavam no confronto com os racistas para construir uma sociedade socialista, portanto, sem classes e sem discriminações. “Eles foram a primeira tentativa mais avançada de organização dos afro-americanos para a construção de uma nação mais solidária e justa e bem no centro do império do capitalismo”, afirma Custódio.
"Panteras Negras: todo poder ao povo" (1997), de Lee Lew-Lee 
O partido nasceu no meio de um forte acirramento das lutas pelos direitos civis dos negros norte-americanos. Nasceram como uma radicalização do movimento pacifista liderado pelo grande herói Martin Luther King (1929-1968), tão importante quanto os Panteras no combate ao racismo. 
“O Black Panther Party (Partido dos Panteras Negras) se tornou referência obrigatória para todos os movimentos contra o racismo e pelos direitos civis da população negra ao redor do mundo pela postura contestadora, combativa e pela extrema preocupação com a formação teórica e política da militância e de constituição dos seus núcleos de atuação espalhados nos Estados Unidos, mas em permanente articulação com povos oprimidos do mundo”, afirma Ângela Guimarães, presidenta da União dos Negros pela Igualdade (Unegro).
Para mostrar a diferença essencial entre o que os Panteras Negras defendiam e os seguidores de Luther king, Bobby Seale, presidente do partido, diz que “embora os Panteras Negras acreditem no nacionalismo negro e na cultura negra, eles não acreditam que levarão à liberdade negra ou à derrubada do sistema capitalista, e são, portanto, ineficientes”.
Luther King seria assassinado cerca de 1 ano e meio após a criação do movimento dos Panteras, em 4 de abril de 1968. Inicialmente liderado por Malcolm X (assassinado em 21 de fevereiro de 1965), o grupo se notabilizou e ganhou inúmeros adeptos rapidamente.
Tão famosos ficaram que os atletas velocistas dos 200 metros rasos, Tommie Smith (medalha de ouro) e John Carlos (medalha de bronze) na Olimpíada da Cidade do México em 1968, após receberem a medalha levantaram os punhos cerrados (como na foto abaixo), manifestação característica deles.
panteras negras 1968
Esse símbolo também foi adotado pelo jogador Sócrates (1954-2011) na comemoração de seus gols relembrando os Panteras e em protesto contra a ditadura brasileira, vigente na época em que ele atuou pelo Corinthians (veja foto abaixo). O centroavante do Atlético Mineiro, Reinaldo coemorava seus gols com o mesmo gesto e os mesmos motivos. Dizem alguns estudiosos que ele foi cortado da seleção brasileira por isso.
socrates faz a tradicional comemoracao de gol depois de ajudar o corinthians a fazer 3 a 1 sobre o sao jose no parque antarctica pelo campeonato paulista de 1983 1315269166866 1920x1080
“Neste momento onde há uma crise profunda do capitalismo no mundo acompanhada do recrudescimento do racismo e sexismo e os ideais dos Panteras materializado no seu programa torna-se ainda mais atual e necessário”, argumenta Guimarães.
mulher raca classe angela davis
Cientes da necessidade de propagar as suas propostas, criaram em 1967 a publicação semanal “The Black Panther”, que parou de circular em 1971, depois de 4 anos. “De um grupo exclusivamente masculino, ele logo passou a aceitar o ingresso de mulheres, que chegaram a representar mais da metade da militância”, diz Buonicore.
“A militância feminina dos Panteras Negras marcou definitivamente o movimento feminista ajudando a colocar na pauta a questão das mulheres negras”, afirma Custódio. Uma das mais importantes militantes é Angela Davis, que tem seu livro “Mulher, raça e classe”, que ganhou recentemente tradução inédita em português.
Para ela essa é uma das heranças fundamentais para a luta das mulheres negras em todo mundo, deixada pelos Panteras. “O movimento feminista tinha dificuldade de entender as questões específicas das mulheres negras”, reforça.
Outro fato importante, segundo a cetebista, é inserir a questão da igualdade racial no âmbito da luta de classes. “Interessante os Panteras defenderem a superação do capitalismo para atingirmos uma sociedade realmente igualitária, onde todos sejam respeitados”.
Já Guimarães afirma que “a radicalidade em contestar a violência racial, mas sobretudo em situá-la como parte de uma violência sistêmica do capitalismo situou os Panteras como um dos movimentos-referência para as lutadoras e lutadores antirracismo de todo o mundo e para a Unegro os Panteras Negras são fontes permanentes de estudo, admiração e referência”.
Custódio lembra ainda que coube aos Panteras Negras ressaltar as espeficidades da “beleza negra, ainda hoje renegada pelos eurocentristas, para quem só há beleza na tez branca, cabelos lisos e olhos claros”. Os Panteras Negras “fizeram muito bem, assumindo os cabelos black e os traços de sua negritude, mostrando toda a beleza do povo negro”, afirma Custódio.
Os Panteras Negras existiram até 1989, após perda de militantes e penetração popular. Mas seus ideais permanecem nos corações e mentes de milhares de pessoas em todo o mundo. “A luta pela emancipação dos negros e negras se espalhou pelo mundo e isso ninguém tira de nós”, sintetiza.
Para ela, “os Panteras deram uma contribuição fundamental para a compreensão de que a luta antirracista é uma das facetas da luta de classes, porque o racismo foi forjado para oprimir uma parcela substancial da humanidade”.
Por isso, diz ela, “é importante a valorização dos 50 anos dos Panteras Negras e tudo o que eles somaram para a compreensão da necessidade de avançarmos para a superação do capitalismo e a construção de um mundo onde prevaleça a igualdade, a liberdade e o respeito”.
Afinal, “lutar contra o racismo é lutar pela emancipação da humanidade”, conclui Custódio. “O legado que os Panteras deixaram é tão essencial para a superação da conjuntura atual que pode ser comprovado com a apresentação da Beyoncé (cantora negra norte-americana) no Super Bowl (final do campeonato de futebol americano nos Estados Unidos), onde fez referência direta aos Panteras Negras e causou frisson”.
Assista a apresentação de Beyoncé para milhões de telespectadores (confira a tradução da letra aqui).
Portal CTB – Marcos Aurélio Ruy